Sessão 1
O Último Farol
Sessão 1 — versão narrativa
O sol descia sobre o arquipélago Freeride com aquela lentidão que só o mar permite — um prolongamento dourado que tocava a maré em camadas de amarelo, rosa, vermelho e laranja. No mirante de Leimar, dezenas de pessoas se aglomeravam em silêncio respeitoso, observando o horizonte onde um pequeno bote avançava solitário em direção ao pôr do sol. A vela era inconfundível: as cores do Pantera Negra, o barco do Capitão Bagueira.
Era costume antigo. Quando um barco se perdia no mar — quando a tripulação não voltava — os vivos enviavam suas oferendas ao horizonte, deixando que as correntes levassem o que restava para onde quer que os mortos tivessem ido. No bote havia flores murchas, tecidos rasgados, pequenos objetos pessoais. Mas o que mais chamava atenção, visível mesmo à distância, era o grande barril de rum amarrado ao mastro improvisado.
Murmúrios corriam entre os presentes. Encontraram o barco à deriva, dizia alguém. Levados pela morte em névoa, completava outro, com aquele tom de quem repete algo que todos já sabem mas ninguém quer confirmar em voz alta.
Kaor permanecia imóvel na borda do mirante, os olhos fixos no bote que se afastava. Ele era alto para um orc — quase um metro e noventa — e sua pele tinha aquele tom azul profundo que marcava os orcs marinhos. A túnica laranja contrastava com o azul do corpo, e o colar de contas — pedras e madeira entrelaçadas — balançava levemente com a brisa. Seu rosto era uma máscara fechada, quase severa, marcado por cicatrizes que contavam histórias que ele nunca compartilhava. As faixas nos braços e a tatuagem que serpenteava pelo ombro esquerdo completavam a imagem de alguém que havia visto muito, e falado pouco sobre isso.
Ao seu lado, Amon ajustava o pingente no pescoço — uma peça curiosa que misturava a forma de um sol com o contorno de uma chave. Ele era mais baixo, um metro e setenta e poucos, humano, com aquela aparência tranquila de quem viajou o suficiente para saber quando se preocupar e quando não. Suas roupas eram simples, surradas pelo tempo e pela estrada, mas limpas. O rosto amigável carregava rugas de expressão nos cantos dos olhos, o tipo de marca que vem de sorrir mais do que franzir.
Conforme o último raio de sol se despediu no horizonte, as pessoas começaram a se dispersar. Algumas desciam para a areia, onde provavelmente os familiares de Bagueira ainda permaneciam. Outras simplesmente se viravam e partiam, levando consigo o peso silencioso do luto compartilhado.
Kaor tocou o colar no pescoço — um gesto breve, quase inconsciente — e se virou para ir embora. Amon o seguiu sem dizer nada. Não havia muito o que dizer.
As docas de Leimar cheiravam a peixe, sal e madeira molhada — um cheiro que grudava nas roupas e na pele de quem passava tempo suficiente por ali. Mas o Bar das Docas acrescentava suas próprias camadas olfativas a essa mistura: urina velha, cerveja derramada e algo que talvez tivesse sido comida em algum momento distante do passado.
A porta estava literalmente caindo dos gonzos, as janelas faltavam vidro em pelo menos três lugares, e o barulho que vinha de dentro sugeria uma briga ou uma festa — ou ambos simultaneamente. Era exatamente o tipo de lugar que alguém indicaria quando dissesse "procure nas docas, mas não espere nada de bom".
Kaor parou na frente da entrada, olhando para a fachada deteriorada com aquela expressão impassível que raramente abandonava seu rosto.
"Então é aqui", disse ele.
Amon suspirou ao seu lado. "Aparentemente é, né? Que barco que a gente tem, isso aqui eu acho que ainda é o menos pior."
Não era exatamente um voto de confiança, mas era o que tinham. Kaor empurrou a porta — que rangeu em protesto — e entrou.
O interior do bar confirmava todas as expectativas negativas. Mesas tortas, cadeiras quebradas, um chão que grudava nos pés a cada passo. Havia pessoas bêbadas em vários estágios de consciência, algumas cantando, outras discutindo, algumas simplesmente desmaiadas sobre as mesas. O cheiro de urina era ainda pior aqui dentro, competindo com o odor de algo que assava em algum canto — provavelmente o tal assado "não tão saboroso" que haviam mencionado.
Mas nem todos os presentes estavam embriagados. Sentado sozinho em uma mesa no canto, um anão baixo e de ombros largos estudava um caderno com atenção meticulosa. Ele usava um avental de couro sobre uma cota de anéis, e seu cinto carregava ferramentas suficientes para construir — ou destruir — um barco inteiro. A barba escura estava bem cuidada, e havia uma qualidade de concentração em seus movimentos que contrastava completamente com o caos ao redor.
Amon se aproximou, usando aquele tom amigável que geralmente funcionava. "Com licença. Uma pergunta: a pessoa falou o nome que tinha que procurar. Você bate com a descrição de um senhor que eu estou procurando. Conserta barcos?"
O anão levantou os olhos do caderno. "É, tem muitos anões por aí. Conserto barcos, conserto, construo, destruo."
"Então é você. Não, destruir não. A gente precisa consertar."
"Pois bem, qual é o serviço?"
Amon respirou fundo, preparando-se para a explicação que sabia soar pior do que era — ou talvez exatamente tão ruim quanto era. "A gente pegou um... a gente fez um negócio, um excelente negócio, gastamos praticamente todas as nossas economias comprando um barco — uma chalupa. E ele precisa de pequenos reparos. Deram a descrição do senhor, que o senhor conserta barcos. A gente precisa fazer esse negócio flutuar para que ele saia daqui e a gente possa desbravar este mar e quem sabe descobrir o que tem atrás da névoa."
O anão fechou o caderno devagar, como se precisasse de um momento para processar o que acabara de ouvir. "Ah, mas então você quer um barco que consiga atravessar a névoa? Não sei se uma chalupa..."
"Não, o barco que consiga atravessar, a gente já tem. A gente só precisa consertar ela. Confia!"
Houve uma pausa. O anão estudou Amon com aquela expressão que mestres artesãos reservam para clientes particularmente otimistas.
"Tá bom. Eu sou o Simas Redwood."
Kaor se aproximou, sua voz grave cortando a conversa. "Com licença, senhor. Qual é o seu nome? Muito prazer, meu nome é Kaor. Esse é o meu amigo Amon. A gente só precisa que você conserte o nosso barco, que a gente consiga colocar isso para navegar, e você será bem-vindo."
"Certo. Me leve até o barco de vocês e a gente vê o que precisa ser feito."
A caminhada até as docas foi silenciosa. Simas observava os barcos conforme passavam — reconhecendo alguns nos quais já havia trabalhado, notando reparos bem-feitos e outros nem tanto. Ele tinha aquele jeito de andar de quem carrega ferramentas pesadas o dia inteiro, os ombros largos balançando levemente a cada passo.
Conforme avançavam, as docas iam ficando cada vez mais vazias. Os barcos maiores e bem-cuidados ficavam no início, perto da Guilda. Depois vinham os médios, os de pesca, os que ainda tinham donos ativos. E então, no final — literalmente no final das docas — estava o barco deles.
Simas parou.
O barco era... bem, era um barco. Tecnicamente. As madeiras estavam descoloridas e rachadas, a pintura descascada em grandes placas, e havia uma inclinação suspeita no casco que sugeria problemas estruturais sérios. Mas o que realmente chamava atenção era a macaquinha sentada no convés, girando a manivela de um fonógrafo velho que tocava uma música arranhada e melancólica.
"Veja," disse Amon, com aquele entusiasmo forçado de quem tenta vender algo que nem ele próprio compraria, "não sei se você reparou, o barco já tem até o mascote. É Diluth. Ambiente para a gente navegar. Quantos barcos você conhece que têm uma macaquinha ainda?"
Simas desceu até a doca, seus passos pesados fazendo a madeira ranger. Ele se aproximou do barco devagar, estendendo a mão para tocar o casco. Era algo que ele sempre fazia — uma forma de sentir o barco, de entender sua condição através do toque.
A sensação que o atingiu foi devastadora.
Não era apenas deterioração física. Era abandono. Era promessa quebrada. Era como um atleta no auge da carreira que quebra a perna e nunca mais volta a ser o mesmo. O barco tinha sido algo, uma vez. Agora era apenas a sombra do que poderia ter sido.
"É mais fácil destruir e construir um novo", disse Simas, e não havia exagero na voz.
"Não, destruir está fora de questão."
Kaor se aproximou de Amon, falando baixo. "Foi esse cara que você conseguiu?"
"Calma, confia. Ele não está nem cobrando. Ainda."
Nesse momento, passos se aproximaram pela doca. Um homem bem-vestido — especialmente bem-vestido para as docas — caminhava em direção a eles com uma prancheta na mão. Cabelo castanho, pele bronzeada pelo sol, e aquela postura de quem carrega autoridade burocrática.
"Senhores, bom dia. Vocês, por acaso, conhecem os donos desse barco?"
"Somos nós", respondeu Amon.
Simas imediatamente deu um passo para trás. "Eu não tenho nada a ver, só estou aqui para ver o estrago do barco para fazer reparos."
O homem sorriu — o tipo de sorriso que não chegava aos olhos. "É que a gente cuida aqui das docas. Eu sou o Rowan, trabalho aqui com a Guilda das Docas. Talvez vocês conheçam, já tenham ouvido falar de Petropoli Rocha."
"Conheço bem a figura", murmurou Simas.
Rowan continuou, tirando um papel da prancheta. "Era um barco abandonado aqui. Mas pelo que eu posso ver, talvez então não seja abandonado."
"Não, o barco não está abandonado. O Buggy vendeu ele para nós e o mestre anão aqui, o Simas, ele vai consertar."
A menção do nome Buggy fez Rowan colocar a mão no rosto, esfregando os olhos com cansaço. Buggy. Claro que era Buggy. O maior trambiqueiro das vinte e seis ilhas Freeride, conhecido por fazer propostas "irrecusáveis" que invariavelmente metiam as pessoas em encrencas profundas.
Rowan estendeu o papel para quem estava mais perto. Era uma taxa de doca: quinze peças de ouro.
Kaor pegou o papel. Suas expressões eram sempre mínimas — o rosto dele raramente mostrava mais do que o absolutamente necessário — mas houve um ligeiro franzir na testa. Ele passou o papel para Amon sem dizer nada.
"É que como me passaram que ele estava abandonado," explicou Rowan, "na verdade a gente ia destruir ele."
"Tem muito dinheiro envolvido nesse barco," protestou Amon. "Se tem uma dívida aí, você deveria cobrar do Buggy, que a gente pagou ele e ele falou que estava tudo certo."
Kaor interrompeu, colocando a mão no peito de Amon — um gesto suave mas firme. "Sr. Rowan, teria alguma outra coisa que a gente pode fazer? O barco é nosso, a gente vai tirá-lo daqui com o conserto do Sr. Simas. Mas tem outra coisa que você precisa? Alguma coisa que você quer pra pagar essa dívida? A gente tá aqui pra ajudar."
Rowan suspirou. "Bem, eu posso talvez conversar lá com o Petro para ver o que a gente pode fazer. Mas a cada dia que passa ela meio que aumenta, porque vocês ainda vão estar utilizando aqui."
Kaor deu um passo à frente, e havia algo na maneira como ele se movia — deliberada, sem pressa — que fazia as pessoas prestarem atenção. "Faz um tempo que a gente chegou aqui e a gente comprou o barco. Eu entendo que ele tem uma dívida. Mas a gente também precisa de alguém que entenda de finanças e onde conseguir dinheiro. Parece que você é esse cara. Você não me entendeu. Eu não quero o Petro. Quero você no barco."
Rowan piscou, surpreso. A prancheta escorregou de suas mãos e caiu na doca com um baque surdo.
"Então você faz parte da tripulação", concluiu Kaor, como se estivesse apenas confirmando um fato óbvio.
"Não, calma." Rowan se abaixou para pegar a prancheta, ganhando tempo para processar. "Vocês já chegaram a tentar navegar nesse barco, depois que vocês compraram?"
"Não."
"Mas vocês têm coisas mais importantes a fazer." Rowan olhou para a notinha de quinze peças de ouro. "Certo, e como vocês fariam esse dinheiro?"
"Eu tenho dois braços, duas pernas e disposição," disse Kaor. "O Amon, conhecimento suficiente para conseguir entender um pouco de navegação, como as estrelas funcionam e para onde a gente deve ir para conseguir esse dinheiro. E nós temos um cara que entende de finanças e sabe conseguir trabalho. E um anão."
Kaor olhou para baixo ao mencionar Simas. O anão olhou de volta para cima, sem se ofender.
Amon acrescentou, com aquele entusiasmo meio deslocado: "Você tá precisando de alguém que quebrou o braço, precisa ser curado? A gente consegue também. Se o senhor não estiver acreditando, a gente pode quebrar o seu braço pra te mostrar que é possível arrumá-lo."
Rowan deu um passo para trás. "Como assim? Você está me ameaçando?"
Kaor olhou muito confuso para Amon.
"Não, eu estou dizendo que se você quebrar o braço, a gente consegue arrumar. Não é uma ameaça. A gente vai aprendendo. Foi muita viagem até chegar aqui, eu passei por bons bocados."
"Tudo bem, Amon. Depois você conta essa história aí." Kaor voltou sua atenção para Rowan. "Então é isso: temos um que conserta barco, temos o cara que cuida de finanças, o Amon, o macaco e eu."
"Vocês três já estão juntos?"
"Sim. Não tem como nós não estarmos juntos."
Simas, que havia permanecido em silêncio observando toda a negociação, finalmente falou. "Ainda faltam duas coisas antes da gente zarpar. Esse barco não tem um nome e o nosso grupo também não tem um nome. São três coisas, então. Alguém tem que dar um jeito nesse macaco."
"Não, não, não, não, não, infelizmente não." A voz de Amon tinha uma firmeza que não costumava estar lá. "O macaco permanece. Nunca, jamais tiraremos o macaco daqui."
Como se entendesse a ameaça, Diluth agarrou-se ao parapeito do barco, os dentes pequenos aparecendo em um grunhido defensivo, o corpo inteiro tremendo.
"A macaquinha Diluth vai ficar," concluiu Amon. "A música talvez a gente possa jogar fora."
O prédio da Guilda das Docas se distinguia dos demais não apenas por ser maior, mas por ser bem-feito. As paredes eram sólidas, as escadarias não rangiam, e havia dois guardas da cidade postados na entrada — guardas de verdade, com uniformes limpos e armas bem-mantidas.
Quando entraram, um sininho tocou acima da porta. O interior era um salão amplo com murais cobrindo três paredes. Havia desenhos de barcos, listas de cargas, mapas de rotas comerciais. Um dos murais era dedicado inteiramente a procurados — rostos desenhados com vários graus de habilidade artística, alguns com recompensas impressionantes.
No fundo do salão, atrás de uma mesa grande, um anão se virou ao ouvir o sino.
Petropoli Rocha — Petro, para quem o conhecia bem o suficiente para usar o apelido — era diferente da maioria dos anões. Ele tinha carisma, o tipo de presença que preenchia uma sala. O corpo era musculoso de uma forma que sugeria treino constante e dedicado. A barba estava perfeitamente trançada, o cabelo cortado com precisão geométrica. Uma cicatriz atravessava a sobrancelha esquerda, e os olhos negros eram profundos e cansados — os olhos de alguém que via muita coisa e gostava de pouco do que via.
Havia uma tatuagem escura meio escondida pela manga dobrada, e no pulso esquerdo ele usava um log pose — uma bússola de mão que marcava as correntes e os ventos do arquipélago.
"Quem são esses, Rowan?"
"Sabe o barco abandonado" — Rowan fez aspas com as mãos — "que você pediu para eu verificar na doca? Então, esses são os capitães, os novos donos dele. No caso, aparentemente o Buggy vendeu para eles e deu no pé, e eles não têm o dinheiro para pagar as quinze moedas de ouro que tá lá."
Petro suspirou, o tipo de suspiro de quem já lidou com essa situação muitas vezes antes. "Mais desses. Eu sinto muito por vocês, mas o barco que agora é de vocês, mesmo não tendo um nome, tem uma dívida. Vocês podem trabalhar nas docas, podem trabalhar em qualquer lugar. Se vocês trabalharem bem, o suficiente para pagar... Mas eu não sei qual o interesse no barco tão..."
Ele parou, olhando para Amon com atenção. "Você não parece ter traços de marujo."
"Bem notado. De fato, eu não sou marujo."
Kaor observava Petro com atenção. Havia algo na maneira como o anão falava — a visão do macro, não do micro. Ele gerenciava, não trabalhava. Pensava em termos de guilda e comércio, não de cordas e velas. Às vezes isso o tornava impessoal, quase arrogante, mas era a arrogância de alguém que sabia exatamente como as coisas funcionavam.
"De fato, eu não sou um marujo," continuou Amon, "mas eu sou um excelente navegador. Eu venho viajando desde a Ilha Estrela para cá. Se você tiver algum serviço que faça o nosso barco sair daqui para navegar, fica até mais fácil."
Petro apontou para um dos murais. Bem no topo estava desenhado um anzol, e ao lado, a palavra "ISCAS". Havia três papéis pregados ali.
"Você pode ser uma isca."
Amon começou a atravessar o salão em direção ao mural. Era um espaço grande — uns nove metros de lado — e seus passos ecoavam no chão de madeira polida.
O sino da porta tocou novamente.
Todos se viraram.
A mulher que entrou estava toda de preto. O cabelo branco — não de velhice, mas naturalmente claro — estava trançado com cuidado. Ela usava brincos de esmeralda que capturavam a luz, e um pingente também de esmeralda em forma de trevo de cinco folhas pendia de seu pescoço. As olheiras estavam levemente visíveis sob os olhos, como se ela tivesse tentado disfarçá-las mas não completamente conseguido. Era óbvio que havia chorado recentemente.
Alguns no grupo a reconheceram. Ela estava na praia mais cedo, observando o bote partir.
"Desculpe, Petro, não tinha percebido que você estava atendendo. Voltarei outra hora."
Petro fez um gesto para que ela ficasse. Houve uma troca de olhares entre eles — algo silencioso mas carregado de significado. Busca de confiança, busca de aprovação, uma conversa inteira acontecendo sem palavras.
"Você conseguiu as iscas de confiança que eu precisava?" perguntou ela, finalmente.
Petro olhou para Rowan. Depois para o grupo. "É, minha senhora, esses... Bom, minha senhora, esse pessoal está precisando de trabalho. E se a senhora desejar, eu posso enviar o Rowan junto com eles. E torceremos que eles voltem. O barco deles não é lá grandes coisas."
"Tem mais um anão junto também", acrescentou Rowan.
A mulher estudou o barco deles pela janela, avaliando. "Talvez um barco que não chame tanto a atenção possa ser mais eficiente."
Ela se voltou para eles, e Kaor deu um passo à frente.
"Nós só temos um problema, senhorita. Qual é o seu nome?"
"Senhora. Eu sou Iolinda."
"Muito prazer, Iolinda. Meu nome é Kaor, esse é o Amon. Nós estamos dispostos a te servir. Entretanto, o nosso barco sequer irá navegar de maneira..."
"O barco de vocês navega," interrompeu Petro, com paciência forçada. "Ele só não está em perfeitas condições."
"O barco não navega das maneiras adequadas," corrigiu Kaor. "Ele navega, mas se a gente pegar alguma tempestade, o barco se desfaz em quinze pedaços."
Iolinda apertou os braços contra o corpo, um gesto de contenção. "Eu compreendo. Talvez vocês não saibam, mas o barco do meu marido foi encontrado à deriva, algumas milhas daqui. Ele encalhou num coral."
A mão de Kaor foi instintivamente ao colar no pescoço.
"E, perdão pela pergunta, mas o que aconteceu com ele?"
Iolinda se apertou mais, os ombros curvando levemente. "Dizem que foi levado pela névoa, pela morte em névoa. Mas eu... eu não sei. Em todo caso, preciso que algumas iscas resgatem algumas coisas importantes que estão no barco, que provavelmente estejam no barco."
Rowan olhou assustado para Petro — essa era informação nova. Petro apenas concordou com a cabeça, confirmando silenciosamente que sim, era isso mesmo, e não, Rowan não precisava saber de tudo.
"Eu preciso que vocês tragam pra mim de volta o porta-retrato. É pequeno, mas Bagueira guardava uma foto da nossa família. Eu preciso desse porta-retrato. Além disso, ele possuía dois baús: um embaixo da sua mesa e um escondido. Infelizmente eu não sei dizer a vocês onde está o escondido, mas eu sei que está lá. Se vocês puderem trazer pra mim o que encontrarem... Se houver ouro e riquezas, eu os compartilharei com vocês. Mas o mais importante é o porta-retrato."
Kaor não hesitou. "Eu sinto muito, senhora. Considere a missão feita. Nós iremos."
Iolinda estendeu a mão. Era um gesto formal — o aperto de mãos que selava contratos entre capitães e contratantes. Ela não sabia quem era o capitão do grupo, então oferecia a mão para quem quisesse aceitar.
Amon fez um gesto encorajador. "Pode ser o capitão, não tem problema."
Kaor estendeu a mão, tentando ser delicado. A mão dela era pequena e suave, a pele sensível e bem-cuidada. Ela apertou com firmeza feminina mas clara.
"Aguardo o retorno de vocês, então."
Ela acenou para Petro e saiu, o sino tocando novamente quando a porta se fechou.
Simas trabalhou no barco por três horas.
Ele começou pelo casco, tocando cada tábua, sentindo onde a madeira estava fraca, onde havia sido remendada incorretamente. Alguém — provavelmente Buggy ou algum "ajudante" que ele contratara — tinha tentado tapar buracos usando madeira demais no meio do barco. Isso não só não tapava os buracos como destruía completamente a hidrodinâmica.
Simas relocou essas madeiras com precisão, usando-as onde realmente eram necessárias. Os buracos verdadeiros — que não eram tão grandes quanto pareciam — ele tampou com cera, aplicando-a em camadas cuidadosas. Não era um conserto permanente, mas era sólido.
Quando terminou, o barco tinha passado de um quinto para dois quintos de capacidade funcional. Ainda não era bom, mas era navegável.
Rowan tentou consertar as velas enquanto isso. Ele tinha alguma experiência com costura — todo mundo que trabalhava nas docas acabava aprendendo o básico — mas as velas estavam além de reparo. Eram remendos sobre remendos, tecido tão fino em alguns lugares que se podia ver através dele. Não havia o que fazer. Precisariam de pano novo.
Eram meio-dia quando terminaram. Rowan foi até a guilda e voltou com mantimentos: peixes secos, bacalhau que deveria ser vendido barato, batatas — sempre batatas, porque batatas nunca faltavam em alto mar — e um barril de água potável. Era suficiente para irem e voltarem, se tudo corresse bem.
Soltaram as cordas. Levantaram a âncora — que estava pela metade, completamente enferrujada, com apenas um dos ganchos funcionando. Conforme o barco começou a se mover, ele rangia. Muito. Era o tipo de som que fazia todos pararem e olharem para baixo, esperando que a próxima tábua que pisassem não fosse quebrar.
O barco era de quilha: tinha o convés em cima e o porão embaixo. Era um pouco maior que a maioria das chalupas — podia transportar até dez pessoas quando estivesse em capacidade total — e precisava de apenas um timoneiro para operar.
Eles começaram a avançar, beirando a costa da ilha. A sensação de que as madeiras iriam se soltar a qualquer momento nunca passava completamente. Cada onda fazia o barco gemer, cada mudança de direção produzia novos rangidos.
A única coisa que trazia algum alívio cômico era Diluth.
A macaquinha estava completamente à vontade. Quando a brisa tocava, ela se pendurava nas bordas do barco, o corpo pequeno esticado, deixando o vento bater nos pelos. Às vezes voltava ao fonógrafo e girava a manivela, fazendo a música arranhar por alguns minutos antes de parar novamente. Ela estava em casa no mar de uma forma que nenhum deles estava.
Foram várias horas de insegurança constante. Mas aos poucos, conforme navegavam, começaram a se acostumar. Aprenderam onde as madeiras rangiam mais, quais tábuas evitar, como distribuir o peso. Amon estava no timão, controlando o barco com uma competência surpreendente para alguém que não era marujo.
A noite caiu.
Não havia lugar apropriado para dormir. O convés era duro e exposto, o porão estava cheio de mantimentos e ferramentas. O máximo que conseguiram foi juntar os sacos de batatas para fazer travesseiros improvisados.
Kaor fez isso com uma eficiência que sugeria prática. Ele usou os sacos como base, cortou a palha de uma forma específica, arranjou tudo como uma pequena cama. Era alguém acostumado com o desconforto, alguém que havia dormido em lugares piores e aprendido a fazer o melhor deles.
Conforme o novo dia amanheceu, conseguiram ver no horizonte o que seria o Pantera Negra — o barco de Bagueira. Foram se aproximando devagar, e sim, ele realmente havia encalhado em um coral. Era estranho. Qualquer navegador competente conseguiria contornar aquele coral. Para encalhar ali, o barco realmente teria que estar à deriva, sem ninguém no timão.
Amon estava usando a luneta do kit de navegador, estudando o Pantera Negra conforme se aproximavam. De repente, ele parou.
"Tem outro barco", disse ele, a voz mudando.
"Como assim?" Kaor se aproximou.
"Tem um barco menor, muito próximo do Pantera Negra. Quase não dá pra ver, mas tem. E tem uma bandeira."
"Que bandeira?"
Amon passou a luneta para Rowan, que tinha mais experiência com isso.
Rowan olhou. Sua expressão mudou imediatamente. "É uma caveira com bigode."
Houve um silêncio.
"Deve ser o Mustache então," disse Rowan, baixando a luneta. "São piratas bem ruins. Alguém que a gente não quer encontrar aqui."
"Eles devem saber do tesouro," especulou Kaor, "mas estão esperando alguém pegar o tesouro."
"Provavelmente eles devem estar buscando alguma coisa, ou souberam que eles sumiram e vieram atrás."
"Mas a pergunta é: o que eles estão esperando? Eles mesmos podem entrar."
Kaor olhou para Amon. "Para o barco."
Amon obedeceu, soltando o timão. O barco começou a derivar levemente.
"A gente vai ter que se preparar," avisou Rowan, "porque eles provavelmente não vão deixar a gente chegar muito perto."
"Então é melhor a gente ir parar um pouco distante," sugeriu Amon, "e, como é um coral, eu acredito que dá pra gente ir andando, dependendo de onde a gente parar."
Ganhariam apenas algumas dezenas de metros dessa forma. Em alto mar não havia como se esconder — não de verdade. A menos que tivessem invisibilidade, qualquer aproximação seria vista.
"Existe a possibilidade de a gente tentar entrar nadando pelo barco do Bagueira, sem ser visto."
"Mas se a gente pode ver eles, eles também podem ver a gente, né?"
"Mas o nosso é bem menor. Esse é bem menor que o deles."
Simas perguntou, prático: "Alguém trouxe uma luneta?"
Amon já estava usando. Ele voltou a olhar, focando agora nas janelas do barco pirata.
Havia movimento. Movimento agressivo. Algo tombou em uma das janelas — parecia um móvel sendo arrastado. Os canhões estavam sendo puxados para dentro, não para fora. Era preparação para algo, mas não para atacar. Era preparação defensiva.
Ainda estavam a uns duzentos metros.
"Eu acho que a gente vai acabar entrando em combate, gente," avisou Amon. "Eu só não sei se esse nosso barquinho vai suportar se tiver um canhão apontado pra ele."
"Esse barco tem um canhão?" perguntou Rowan.
"Quando a gente comprou, ele estava mais barato por conta disso."
O barco sem nome não tinha arma nenhuma.
"Mas eles atacarão a gente sem motivo algum? Apenas por serem maus?"
Kaor levantou a mão, interrompendo a especulação. "Primeiro, por que piratas de verdade não entraram no barco do Bagueira? Segundo, a gente precisa de um plano. Ou a gente entra nadando, ou a gente vai embora. Eu não pretendo ir embora."
"Eu acho que entrar nadando seria o ideal," concordou Amon. "Mas o ideal era a gente ter o mínimo de conhecimento entre a gente. O Kaor é o nosso combatente. Simas, além de consertar, faz mais alguma coisa? Porque se a gente entrar em combate, a gente tem que pelo menos entender o que cada um faz."
"Eu consigo imbuir itens com magia. Que armas vocês usam?"
Kaor levantou os dois punhos. Amon disse que usava maças.
"Eu consigo afiar os seus punhos."
"Senhores," interrompeu Kaor, com aquela voz grave que cortava discussões, "eu acho que isso não é o momento da gente discutir. Todos nós sabemos lutar pelo jeito."
"Não, mas é só pra gente..." Amon estava claramente preocupado. "A minha preocupação é essa: se a gente entrar em combate, a gente tem que ter certeza que todo mundo consegue se virar."
Kaor se virou completamente para Amon. "Amon, você tá se preocupando com pequenos detalhes. A gente precisa pensar nos grandes detalhes agora. Sabe nadar?"
Houve uma pausa.
"Essa é uma pergunta que eu acho que a gente vai descobrir quando eu entrar na água."
O coral criava uma zona de águas calmas. As ondas quebravam do lado de fora, mas aqui dentro o mar era quase plácido, apenas um balanço suave. Todos eram do arquipélago — nadar era algo que se aprendia antes de andar — então não houve hesitação quando Kaor pulou primeiro.
Simas foi o mais desajeitado, caindo na água como uma pedra. Mas era uma pedra que flutuava — um carvãozinho bobando na superfície antes de começar a nadar com braçadas curtas e eficientes.
Nadaram devagar, tentando não fazer barulho. O som do mar ajudava — havia barulho suficiente de ondas e vento para mascarar seus movimentos. Conforme se aproximavam, o coral começou a ficar mais alto, até que conseguiram tocar o fundo com os pés. Uns cinquenta centímetros de água, talvez menos.
Kaor liderava, mirando a parte de trás do Pantera Negra, o lado oposto ao barco pirata. Se tivessem sorte, conseguiriam subir sem serem vistos.
O Pantera Negra era maior do que parecia à distância. Era um barco de verdade, não uma chalupa remendada. O casco estava em boas condições, a pintura ainda brilhava em alguns lugares. Havia escadas de corda penduradas do lado, balançando levemente com o movimento da água.
Kaor subiu primeiro, seus movimentos cuidadosos mas confiantes. Rowan foi atrás, depois Amon, depois Simas. A escada rangia um pouco, mas não mais do que o normal.
Quando Kaor espiou por cima da borda, viu o convés vazio. Não completamente — havia alguém amarrado no meio do convés. Mas não havia guardas visíveis, ninguém vigiando.
O prisioneiro era impossível de não notar.
Ele era azul — não o azul profundo de Kaor, mas um azul mais claro, quase turquesa. Magro, muito magro, com cicatrizes que cobriam o rosto e o corpo. Mas não eram cicatrizes normais. Eram mais claras que a pele, como se tivessem sido queimadas ou descoloridas, formando padrões que quase pareciam tatuagens.
Suas roupas eram feitas de plantas vivas. Não plantas arrancadas e costuradas — plantas que cresciam ali, trepadeiras e algas e coisas de mangue que brotavam do tecido como se ele fosse solo. Era perturbador e fascinante ao mesmo tempo.
O cabelo era longo e emaranhado — impossível dizer se eram dreads, cera ou simplesmente sujeira acumulada. Ele parecia não ter se lavado em meses.
E ele estava olhando diretamente para Kaor.
Kaor fez um gesto para os outros subirem, devagar. Quando todos estavam no convés, ele começou a se aproximar do prisioneiro, tentando se mover silenciosamente.
Rowan segurou seu braço. "Você vai querer soltar ele? Tá, então deixa que eu tento."
Rowan tinha mãos mais ágeis, mais acostumadas com trabalho fino. Ele se aproximou do prisioneiro e começou a trabalhar nas cordas.
Estavam muito apertadas. Os braços do prisioneiro eram finos demais, o que tornava difícil trabalhar sem machucá-lo. Rowan tentou afrouxar um nó, depois outro, mas as cordas não cediam.
"Você não tem uma faca? Você não tem nada?" sussurrou Kaor.
"Eu tenho uma adaga." Rowan puxou a lâmina e começou a cortar.
Nesse momento, uma voz veio de dentro do barco.
"Ei, ei, vai olhar o prisioneiro. Vai que ele sai nadando. Tem cara de peixe."
Passos se aproximavam. Vinham da escadaria que levava ao castelinho do lado esquerdo.
"Se acha mesmo que aquele peixe vai parar em algum lugar?" respondeu outra voz, mais próxima.
A segunda voz estava saindo da escadaria agora. Em mais alguns segundos, quem quer que fosse veria todos eles.
Amon olhou para a escadaria, calculando a distância.
O homem emergiu — um pirata típico, sujo, armado, com aquela expressão de quem não esperava ver absolutamente nada de interessante.
Ele viu quatro pessoas ao redor do prisioneiro, uma delas segurando uma adaga.
Seus olhos se arregalaram.
Kaor olhou para ele e fez o gesto universal de silêncio — dedo nos lábios.
O pirata abriu a boca para gritar.
Sessão 2
O Tesouro do Pantera Negra
Sessão 2 — versão narrativa
A adrenalina subia como maré de tempestade. Kaor sentiu os dedos formigarem — não pelo frio da brisa marítima, mas pela descarga pura de tensão que precede o combate. Ao seu lado, Roa já havia assumido a postura de esgrima que aprendera em algum porto distante, pés afastados, peso distribuído, a lâmina apontando para o centro de massa do homem à sua frente. Amon cerrava os dentes, tentando controlar a tremedeira involuntária que tomava conta de suas mãos.
As cordas que prendiam Mogli finalmente cederam — o garoto havia trabalhado os nós com paciência de caçador, dedos ágeis mesmo sob pressão. Ele se levantou num movimento felino, pegou o cajado que rolara para o canto do convés durante o apagão, e assumiu posição ao lado dos outros.
Cinco homens os encaravam. Todos usavam bigodes imensos, grotescos, que pendiam como tentáculos peludos até o peito. Suas expressões oscilavam entre o psicopático e o genuinamente perturbado — olhos arregalados demais, sorrisos tortos demais, posturas que sugeriam articulações frouxas ou músculos que não obedeciam completamente ao cérebro.
O líder deles cuspiu no convés e disse, numa voz que parecia vir de garganta cheia de catarro: "Hoje a gente vai piar, seus camarões."
Outro completou, balançando a cimitarra como se fosse uma bandeira: "Camarão que dorme a onda leva, mano."
Kaor não teve tempo de processar a estranheza do dialeto. O primeiro pirata já avançava — o mesmo que havia golpeado Roa durante a confusão inicial. Kaor girou o corpo, plantou o pé traseiro no convés molhado e desferiu um golpe lateral com a espada. A lâmina encontrou carne (ataque 15, acerta), rasgou tecido e pele, abriu um talho de quinze centímetros no braço do homem (dano 6). O pirata urrou — não de dor, mas de algo que soava quase como prazer.
Amon ergueu as mãos, os lábios se movendo numa prece silenciosa. Três esferas de luz amarela brotaram no ar ao redor dele, pulsando com calor suave, e depois flutuaram até Kaor, Roa e Mogli. Cada esfera orbitava a cabeça de seu destinatário como lua miniatura, irradiando confiança, precisão, sorte (Bênção conjurada, +1d4 em ataques e salvaguardas).
Mogli girou o cajado e tentou acertar o pirata que havia ficado às suas costas durante o rebuliço. O golpe cortou o ar com assobio grave (ataque 8), mas o homem se abaixou no último instante — o cajado passou a centímetros do crânio barbudo. O pirata riu, uma risada aguda e desconfortável, e contra-atacou com a cimitarra. A lâmina descreveu arco largo, mas Mogli já havia recuado, pés descalços encontrando apoio instintivo nas tábuas irregulares do convés.
Os outros mustaches atacaram em bloco descoordenado. Um deles investiu contra Roa, a cimitarra buscando o pescoço num golpe horizontal. Roa desviou, mas não completamente — a ponta da lâmina arranhou seu ombro (dano 6), rasgando tecido e deixando trilha de sangue quente. Outro pirata mirou Kaor, acertou um golpe rápido no flanco (dano 2) — mais irritante que perigoso. Um terceiro tentou cravar a espada em Amon, mas o clérigo se jogou para o lado (ataque 11, CA 17, erra) e a lâmina se enterrou na madeira do mastro.
Kaor aproveitou a abertura. Girou nos calcanhares e desferiu outro golpe no mesmo pirata que já havia ferido (ataque 15, acerta). A espada encontrou costelas (dano 5), e o homem cambaleou. Kaor tentou completar com estocada final, mas o pirata se esquivou no último segundo (ataque 10, erra) — o impulso do golpe quase fez Kaor perder o equilíbrio.
Roa não perdoou. Avançou com passo curto, firme, e enfiou a espada no abdômen do pirata que o havia ferido (ataque 12, acerta). A lâmina penetrou fundo, buscou órgãos vitais, encontrou algo macio próximo ao fígado (dano 6). O homem olhou para baixo, viu o próprio sangue jorrando ao redor do metal, e desabou de joelhos. Seus olhos ainda estavam abertos quando bateu com a cara no convés.
Amon estendeu a mão direita na direção de outro pirata, dedos em garra, e murmurou palavras em idioma que nenhum dos presentes reconhecia. Uma coluna de chamas sagradas desceu do céu — ou talvez brotou do próprio ar, era difícil dizer — e envolveu o mustache numa cortina de fogo dourado. Mas o homem se jogou para o lado com agilidade surpreendente (salvaguarda de Destreza bem-sucedida), rolou no chão e se levantou fumegando, mas inteiro.
Mogli rosnou. Não era som humano — era algo que aprendera com os lobos, gutural e cheio de ameaça. Girou o cajado como bastão de combate, ganhou impulso e acertou o pirata de baixo para cima (ataque 20, crítico). A madeira atingiu o queixo do homem com força brutal (dano 8), a cabeça dele se jogou para trás num ângulo antinatural, os pés perderam contato com o chão. Ele caiu de costas, a nuca bateu no convés com som oco e definitivo, e ficou imóvel.
Foi quando Simas apareceu.
Ele havia subido a escada do porão no exato momento em que o último pirata se virava para Mogli. Simas estava encharcado — tinha acabado de tomar banho, aproveitando o apagão para usar a água que guardavam no barril de reserva. Seus cabelos pingavam, a camisa grudava no peito, e ele segurava uma toalha na mão esquerda.
Viu a cena. Processou. Largou a toalha.
Avançou e acertou um chute na canela do pirata (ataque 18, acerta). Não foi chute forte — Simas não era lutador — mas foi chute bem colocado, no ponto exato onde o osso fica mais exposto (dano 1). O pirata pulou numa perna só, xingando, e virou toda a atenção para o recém-chegado molhado.
"Você vai morrer, seu—" O pirata não terminou a frase. Investiu contra Simas com a cimitarra erguida (ataque 15, acerta), e a lâmina cortou o antebraço do construtor naval (dano 3). Simas recuou, apertando o ferimento, mas não gritou.
Roa já estava em movimento. Deu dois passos laterais, ajustou a pegada na espada e cravou a lâmina nas costas de outro mustache (ataque crítico). O homem nem teve tempo de gritar — a ponta da espada atravessou o pulmão, saiu pelo peito (dano 6), e ele desabou como marionete com cordas cortadas.
Mogli girou o cajado novamente, desta vez mirando o pirata que havia atacado Simas. O golpe foi preciso e cruel (ataque 20, acerta) — acertou o homem entre as pernas com força suficiente para levantá-lo do chão (dano 8). O pirata emitiu som agudo, quase inaudível, e caiu para trás. Sua cabeça bateu no convés pela segunda vez naquela noite, e ele apagou.
Restava apenas um.
Kaor avançou, a espada ainda pingando sangue do primeiro pirata que havia ferido. Desferiu golpe diagonal (ataque 16, acerta), que abriu talho profundo no ombro do último mustache (dano 5). Tentou completar com estocada (ataque 11, erra), mas o homem se esquivou, cambaleante.
Simas, ainda segurando o antebraço ferido, concentrou-se. Seus olhos brilharam por um instante — aquele brilho estranho que às vezes tomava conta dele quando usava o poder que não sabia explicar. Uma pá se materializou no ar, sólida e real como se sempre tivesse estado ali. Simas a pegou com a mão livre e acertou a testa do pirata (ataque 18, acerta). O impacto foi seco (dano 3) — o homem já estava "piruleibe", nas palavras que Mogli usaria depois, e agora ficava pior.
Roa não deu chance de recuperação. Avançou com passo final e enfiou a espada no peito do último mustache (ataque 24, acerta). A lâmina penetrou entre as costelas, encontrou coração (dano 6), e o homem desabou.
Silêncio.
O convés do Pantera Negra estava coberto de corpos. Cinco homens de bigodes imensos, caídos em posições grotescas, sangue escorrendo pelas frestas entre as tábuas. A brisa marítima trouxe cheiro de sal e ferro.
Foi quando ouviram o grito.
Kaor olhou para o brick dos mustaches. O barco havia armado velas durante o combate — velas sujas, remendadas, mas funcionais. Dois piratas permaneciam a bordo: um no timão, outro ajustando cordas. O timoneiro gritou, a voz atravessando a distância crescente entre os navios:
"Nos veremos de volta, seus idiotas!"
O brick se afastava, ganhando velocidade, deixando o Pantera Negra para trás como promessa não cumprida.
Roa limpou a lâmina da espada na camisa de um dos mortos. Kaor se ajoelhou ao lado do primeiro corpo, começou a revirar os bolsos. Amon observava, ainda com as mãos tremendo — a adrenalina levaria tempo para baixar.
"Alguma coisa?" Simas perguntou, ainda segurando a pá materializada.
Kaor balançou a cabeça. "Só a cimitarra e a armadura de couro." Passou para o segundo corpo. Mesmo resultado. Terceiro. Quarto. Quinto.
Todos carregavam apenas as armas e as armaduras — nada mais. Sem moedas, sem amuletos, sem bilhetes, sem canudos de metal cheios de veneno como alguns piratas costumavam usar. Apenas os bigodes imensos e tatuagens aleatórias que não formavam padrão reconhecível.
Mogli se agachou ao lado de um dos corpos. Seus dedos trabalharam com precisão cirúrgica — ele havia aprendido a dissecar presas na selva, e o processo não era tão diferente. Abriu o crânio do pirata com faca que pegou emprestada de Kaor, expôs o cérebro.
"O que você está fazendo?" Amon perguntou, a voz subindo uma oitava.
"Verificando se a loucura era doença," Mogli respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Ele examinou o órgão com atenção de anatomista, virando-o entre os dedos ensanguentados. "Cérebro parece normal. Talvez seja só comportamento."
Amon desviou o olhar, a mão cobrindo a boca.
Kaor se levantou, limpando as mãos na própria calça. "Vamos explorar o resto do barco. Se os mustaches vieram aqui, tinha um motivo."
Simas já estava analisando o convés com olhar profissional. Apontou para marcas recentes na madeira — talhos profundos, facadas que mostravam o contraste entre a camada externa escurecida pelo tempo e a madeira interna ainda clara. "Houve combate aqui antes. Não foi nossa luta — essas marcas são de horas atrás, talvez um dia."
Roa seguiu as marcas com os olhos. "Bagheera lutou aqui."
"Provavelmente." Simas se aproximou do castelo da proa, onde dois ganchos de reboque ainda penduravam, esquecidos pelos mustaches na pressa da fuga. "Eles queriam rebocar o Pantera Negra. Por isso o barco deles é brick — rápido, mas não tem espaço de carga. Não poderiam ter levado o conteúdo do porão."
Kaor desceu a escada que levava aos aposentos internos. Roa e Simas o seguiram. Amon ficou no convés com Mogli, que ainda examinava os corpos com curiosidade científica perturbadora.
A cabine do capitão estava destruída.
Não era bagunça comum de combate — era devastação metódica. As estantes haviam sido arrancadas da parede e jogadas no chão, livros espalhados com páginas rasgadas. A cadeira estava de pernas para cima, uma das pernas quebrada. A janela na popa tinha vidro estilhaçado, cacos espalhados pelo chão como dentes quebrados. A mesa pesada de carvalho havia sido empurrada para fora de posição, revelando marcas de arrasto no assoalho. O lustre pendia torto, metade das velas faltando.
Kaor começou a revirar os destroços com cuidado sistemático (Investigação 17). Examinou cada gaveta, cada prateleira caída, cada canto onde algo poderia estar escondido. Encontrou mapas náuticos rasgados, um sextante quebrado, roupas espalhadas, uma garrafa de rum vazia. Mas não encontrou o porta-retrato.
Yolinda havia sido clara: o item mais importante era o porta-retrato da família de Bagheera. Um quadro de madeira trabalhada com a foto dele, da esposa e dos dois filhos. Bagheera nunca viajava sem aquilo.
"Não está aqui," Kaor disse, a voz carregada de frustração.
Simas não estava prestando atenção. Seus olhos percorriam as paredes da cabine com a precisão de quem conhece estrutura naval por dentro e por fora. Ele se aproximou da parede do fundo, passou a mão pelas tábuas, bateu de leve com os nós dos dedos (Investigação 19).
"Aqui," ele disse, apontando para três tábuas que pareciam idênticas às outras. "Essas tábuas não deveriam estar aqui. Estão sobrando na estrutura — veja, a parede tem espessura dupla neste ponto."
Kaor se aproximou. "Compartimento secreto?"
"Provavelmente."
Kaor enfiou os dedos na fresta entre as tábuas e puxou. A porta secreta resistiu por um momento, depois cedeu com rangido de madeira antiga. Uma névoa cinza escapou pelas frestas.
Kaor inalou antes de perceber o perigo. A fumaça entrou em seus pulmões, gelada e viva, tentando se enroscar em sua mente como serpente procurando brecha (Salvaguarda de Constituição: passa). Por um instante — apenas um instante — ele sentiu vontade de rir, de gritar, de enfiar a espada no próprio braço só para ver o que aconteceria. Mas a vontade passou. Ele prendeu a respiração, recuou, esperou a névoa se dissipar.
"Você está bem?" Roa perguntou, a mão já no cabo da espada.
"Estou." Kaor balançou a cabeça, limpando os últimos resquícios da sensação. "Tinha alguma coisa nessa fumaça. Algo que mexe com a cabeça."
Quando a névoa finalmente se dissipou, eles viram o baú.
Era pequeno — trinta centímetros de largura, trinta de comprimento, quinze de altura. Madeira escura, reforçada com metal nas quinas. Fechadura interna, do tipo que precisa de ferramentas específicas ou muita paciência.
Roa se ajoelhou, tirou o kit de ferramentas de ladrão que carregava no cinto. Enfiou duas gazuas na fechadura, trabalhou os mecanismos internos com movimentos delicados (primeiro teste: falha). A fechadura resistiu.
"Quer que eu dê um soco?" Kaor ofereceu.
Roa olhou para o baú — madeira reforçada, metal sólido. "Acho que não vai funcionar."
Tentou novamente (segundo teste: 16, sucesso). Desta vez, algo clicou. A tampa do baú se soltou.
Dentro, tesouro.
Aproximadamente quinhentas moedas de ouro, empilhadas em saquinhos de pano. Um anel de prata trançado, com safiras pequenas encravadas entre os nós do metal — Kaor o ergueu contra a luz, e Simas reconheceu o encantamento (Conhecimento Arcano revelou): era Anel de Natação, concedia velocidade de doze metros debaixo d'água. Uma moeda de cobre solitária, polida até brilhar, com entalhe de trevo de cinco folhas em um dos lados (História 12, passa) — Roa a examinou e reconheceu: era moeda da dinastia anterior do reino de Elenar, não usada há mais de mil anos, mas ainda em perfeito estado.
E a esfera.
Era do tamanho de bola de beisebol, translúcida como vidro, mas não era vidro. Dentro dela, energia viva se movia — não era líquido, não era gás, era algo entre os dois, pulsando com luz própria que variava entre azul e branco. Kaor a pegou com cuidado, e a esfera aqueceu em sua mão, respondendo ao toque (História com vantagem: 19).
"Eu sei o que é isso," Simas disse, a voz baixa. "É a Fonte de Energia. Uma das três joias que faziam funcionar o medidor meteorológico da Ilha Maravilha durante as guerras antigas, antes do reinado do Rei dos Piratas."
"Yolinda mencionou," Kaor lembrou. "Disse que Bagheera roubou essa pérola. Pediu que a gente devolvesse à Ilha Maravilha se a encontrássemos."
Roa fechou o baú vazio. "Então temos quinhentas moedas, um anel mágico, uma moeda de sorte e uma joia histórica roubada."
"E nenhum porta-retrato," Kaor completou.
Eles exploraram o resto do navio com metodicidade de saqueadores experientes. O compartimento de carga estava completamente vazio — não havia marcas de arrasto, nenhum sinal de que algo pesado tivesse sido removido recentemente. As coisas simplesmente não estavam mais lá.
"A névoa pode ter levado," Simas sugeriu, examinando o assoalho limpo. "Ou alguém esvaziou o barco antes dos mustaches chegarem."
Mogli desceu para se juntar a eles, ainda com sangue seco nas mãos. "Encontraram algo interessante?"
Kaor mostrou o baú. Mogli pegou a esfera brilhante, virou-a entre os dedos com fascínio infantil. "Bonita."
"Não quebre," Roa avisou.
Voltaram ao convés. O sol começava a descer no horizonte, tingindo o céu de laranja e vermelho. O brick dos mustaches já era apenas ponto distante, quase invisível contra o brilho do mar.
"Vamos voltar para Porto Horizonte," Kaor decidiu. "Yolinda precisa saber."
Simas olhou para o Pantera Negra, avaliando o estado do barco com olhar profissional. "Eles vão precisar rebocar. O barco está inteiro, mas as velas estão destruídas e o leme está travado. Não vai navegar sozinho."
Mogli se virou para Kaor, os olhos brilhando com expectativa. "Posso ir com vocês?"
Kaor olhou para os outros. Roa deu de ombros. Amon assentiu. Simas sorriu.
"Bem-vindo à tripulação," Kaor disse.
A viagem de volta levou um dia inteiro. Durante a navegação, Mogli usou magia que aprendera com os espíritos da selva — Falar com Animais — e passou horas conversando com a macaquinha que vivia no barco. A criatura era fêmea, pequena, com pelagem marrom-acinzentada e olhos inteligentes demais para um animal comum.
Mogli traduziu partes da conversa para os outros. A macaquinha nunca deixaria o barco. Estava presa ali por lembrança — algo que acontecera no passado, um sentimento que ela não conseguia decifrar ou explicar, mas que a mantinha amarrada àquele lugar como corrente invisível.
Quando Porto Horizonte apareceu no horizonte, Mogli ficou em pé na proa, as mãos agarradas na amurada, os olhos arregalados.
Era a primeira vez que via civilização.
Ele reagiu como criança em feira pela primeira vez. Apontou para as construções de pedra — "Como fizeram isso? Pedras não crescem nesse formato!" —, para os vendedores nas docas — "Por que estão gritando? Estão brigando?" —, para a escada que subia do porto para a cidade alta — "Escada de pedra! Não apodrece com chuva!"
Roa teve que segurá-lo pelo braço para impedir que pulasse do barco antes de atracarem.
A sede da Guilda do Cais era o mesmo prédio de dois andares que haviam visitado antes. Petro os recebeu na porta, reconheceu Kaor e acenou com a cabeça.
"Voltaram rápido," ele observou. "Encontraram o Pantera Negra?"
"Encontramos," Kaor confirmou. "Precisamos falar com Yolinda."
Petro desapareceu escada acima. Quinze minutos depois — talvez vinte, era difícil medir o tempo na sala de espera sem janelas — Yolinda desceu.
Ela usava o mesmo vestido preto da última vez, mas desta vez havia lenço branco amarrado no pulso. Luto recente, ainda não completamente aceito. Seus olhos encontraram Kaor, depois Simas, depois o baú que Simas carregava.
"Vocês têm certeza que o porta-retrato não estava lá?" ela perguntou, a voz cuidadosamente controlada.
Kaor segurou o olhar dela. "Certeza absoluta, senhora. Reviramos o barco inteiro. Cada cabine, cada compartimento, cada canto. O porta-retrato não estava lá."
Yolinda respirou fundo. Fechou os olhos por um momento. Quando os abriu novamente, estava sorrindo — não era sorriso feliz, mas era sorriso de alívio.
"Bagheera nunca deixaria aquele retrato para trás," ela disse, a voz quebrando levemente. "Nunca. Agora eu tenho certeza que ele está vivo."
Ela atravessou a sala e abraçou o baú como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.
Foi quando Mogli se ajoelhou.
Ele havia observado Kaor cumprimentar Yolinda da última vez, tentado memorizar o protocolo. Agora, ajoelhado no chão de madeira, pegou a mão direita de Yolinda e tentou beijá-la — "cumprimento de dama", como Bagheera havia ensinado.
Yolinda recuou, surpresa, quase derrubando o baú.
"Desculpe, senhora," Mogli disse, ainda ajoelhado. "Sou Mogli. O menino dos lobos. Bagheera me ensinou."
O rosto de Yolinda se suavizou. "Sim. Sim, ele já me falou muito sobre você. Disse que você era um menino promissor." Ela ajudou Mogli a se levantar. "Você está com eles agora?"
"Estou."
Yolinda assentiu, como se aquilo fizesse todo o sentido do mundo. Depois abriu o baú.
Examinou o conteúdo com atenção de comerciante experiente. Pegou a sacolinha com as quinhentas moedas de ouro, pesou-a na mão. "Com isso consigo rebocar o barco do meu marido de volta para o porto."
Viu a moeda de cobre, pegou-a delicadamente entre o polegar e o indicador. "Essa é uma moeda da sorte." Estendeu-a para Kaor. "Guarde. Vocês vão precisar."
Pegou a esfera brilhante, e sua expressão mudou — de suave para irritada. "Falei mil vezes para aquele safado devolver essa pérola!" Colocou a esfera na mão de Kaor com mais força que o necessário. "Se algum dia passarem pela Ilha Maravilha, por favor, entreguem lá. Não quero essa coisa perto de mim."
Por último, examinou o anel. "Podem vender, façam o que quiser. Parte do pagamento."
Ela propôs divisão: ficaria com trezentas moedas de ouro para cobrir o reboque e os custos, o grupo ficaria com duzentas moedas mais os tesouros.
Kaor contou duzentas moedas, separou-as, depois pegou mais quinze do próprio bolso e colocou na pilha de Yolinda. "Para ajudar com outras despesas."
Yolinda olhou para as moedas extras, depois para Kaor. Não disse nada. Apenas assentiu.
Kaor empurrou o grupo em direção à porta antes que alguém tivesse tempo de recusar o dinheiro.
Petro os interceptou na saída. Kaor aproveitou para perguntar sobre a névoa — se havia notícias, avistamentos recentes, qualquer informação que pudesse ser útil.
"Marinheiros relataram avistamento na Ilha Fantasma," Petro disse, os braços cruzados sobre o peito largo. "Faz três dias. Névoa densa, cobrindo a costa norte da ilha. Ninguém se aproximou o suficiente para investigar."
Kaor memorizou a informação. "Obrigado."
Voltaram para o barco. Simas examinou o estado da embarcação com olhar crítico que só construtor naval possui. Bateu na madeira do casco, testou a tensão das cordas, subiu no mastro para verificar as velas.
"Quanto para consertar?" Kaor perguntou quando Simas desceu.
"Depende do que você quer. Para deixar o barco em cem por cento — casco reforçado, velas novas, cordas trocadas, convés lixado — você precisa de duas mil moedas de ouro."
Kaor assobiou baixo.
"Mas," Simas continuou, "se você só quer velas novas para restaurar a velocidade normal, são cento e cinquenta moedas. O resto pode esperar."
O grupo se reuniu no convés para decidir. Tinham duzentas moedas de ouro, mais o anel mágico, mais a moeda de sorte, mais a esfera. Investir cento e cinquenta em velas deixaria apenas cinquenta para suprimentos e emergências.
"Precisamos de velocidade," Roa argumentou. "Barco lento é barco morto."
Amon concordou. Mogli não tinha opinião — ainda estava processando a existência de dinheiro como conceito.
Decidiram investir nas velas.
Enquanto Simas negociava com o mestre veleiro no porto, Igor — que até então havia permanecido silencioso, observando — explicou algo importante.
O arquipélago de Corpésia possuía mecânica de Influência. Duas escalas separadas, cada uma variando de menos dez a mais dez: Respeito e Temor.
Respeito era conquistado através de ações heroicas, decisões honradas, ajuda prestada sem esperar recompensa. Temor era conquistado através de crueldade, intimidação, violência desnecessária.
Ambos tinham valor. Respeito abria portas em ilhas civilizadas, facilitava negociações, garantia aliados. Temor fazia piratas pensarem duas vezes antes de atacar, abria portas em ilhas menos civilizadas, garantia respeito à força.
O grupo começava em zero nas duas escalas. Cada decisão importante afetaria como o arquipélago os via.
"Então somos fantasmas," Kaor resumiu. "Ninguém sabe quem somos ainda."
"Por enquanto," Igor concordou.
Simas voltou com notícias sobre missões disponíveis. Havia quadro de avisos no porto — "Quadro de Iscas", como os locais chamavam — com três ofertas:
Ilha Veneno — Alguém precisava de transporte. Não especificava para onde, nem oferecia recompensa clara. Apenas "pagamento a combinar".
Ilha Fúria — Caçadores locais pagavam por carne de iguaria específica. Novamente, sem recompensa clara.
Ilha das Ruínas — Expedição de tesouro com participação nos lucros. O contratante estava em Porto Horizonte, disponível para conversa.
Além das missões do quadro, tinham informações de outras fontes:
Ilha Maré Negra — O Lorde Mar Negro, governante local, procurava exemplar de Fruta Safira. Ninguém sabia onde encontrar a fruta.
Ilha Maravilha — Precisavam devolver a Fonte de Energia.
Ilha Fantasma — A névoa havia sido avistada lá recentemente.
O grupo debateu. Mogli queria ir atrás da névoa imediatamente. Amon argumentava que precisavam de mais informações primeiro. Roa queria dinheiro — tesouro, recompensas, qualquer coisa que enchesse os cofres vazios. Simas permanecia pragmático: precisavam de missões que pagassem o suficiente para manter o barco funcionando.
Decidiram ordem de prioridade: Ilha das Ruínas primeiro (promessa de lucro), depois Ilha Veneno (transporte rápido, talvez pagasse bem), depois Ilha Fúria (caça, experiência de combate), por último Ilha Maré Negra (se descobrissem onde encontrar a Fruta Safira).
Antes de procurar o contratante da Ilha das Ruínas, tentaram vender os equipamentos dos mustaches — cinco cimitarras e cinco armaduras de couro. Kaor negociou com mercador no porto, mas a conversa não foi bem (Persuasão: falha). O homem ofereceu metade do valor padrão, alegando que as armas estavam manchadas de sangue e as armaduras cheiravam mal.
Aceitaram. Cinquenta moedas de ouro eram melhores que zero.
A noite caiu sobre Porto Horizonte. O grupo se reuniu no convés do barco, agora oficialmente uma tripulação de cinco membros: Amon, o clérigo que ainda tremia depois de combates; Kaor, o líder que tomava decisões sem perguntar; Roa, o espadachim silencioso; Simas, o construtor naval que materializava ferramentas do nada; e Mogli, o garoto criado por lobos que ainda achava escadas fascinantes.
Precisavam decidir três coisas: nome da tripulação, design da bandeira pirata, nome do barco.
As sugestões começaram imediatamente.
"Caça-Névoas," Mogli propôs. "Porque vamos caçar a névoa."
"Muito literal," Roa criticou.
"Pérola Fedida," Simas sugeriu, olhando para o estado atual do barco. "Pelo menos enquanto estiver quebrado."
Amon riu. "Que tal Inafundável Três? Implica que houve Inafundável Um e Dois, e ambos afundaram."
"Gosto da ironia," Kaor admitiu.
Debateram a bandeira. Mogli queria nuvem — símbolo da névoa que procuravam. Simas sugeriu macaco — homenagem à mascote do barco. Roa propôs caveira tradicional, mas todos concordaram que era clichê demais.
A discussão se estendeu. Ninguém conseguia concordar.
"Decidimos no grupo de WhatsApp," Kaor finalmente declarou, usando expressão que não fazia sentido no contexto mas que todos entenderam perfeitamente.
A decisão foi adiada.
Mogli se deitou no convés, olhando para as estrelas. Eram mais estrelas do que ele conseguia contar — muito mais do que via na selva, onde as copas das árvores bloqueavam metade do céu.
"Amanhã vamos procurar o contratante da Ilha das Ruínas," Kaor disse, mais para si mesmo que para os outros.
"Amanhã," Roa concordou.
Amon murmurou prece silenciosa, agradecendo por terem sobrevivido ao dia. Simas verificou as cordas uma última vez, hábito de construtor naval que nunca confiava completamente no próprio trabalho.
A macaquinha apareceu do nada, como sempre fazia, e se acomodou no ombro de Mogli. O garoto coçou atrás da orelha dela, e a criatura ronronou — som estranho para macaco, mas confortável.
Porto Horizonte dormia ao redor deles. O mar batia suavemente contra o casco. Algures no arquipélago, a névoa se movia, consciente e faminta.
Mas por enquanto, estavam seguros.
Por enquanto.
Sessão 3
A Ilha Trapaça e o Enigma da Chave da Aurora
Sessão 3 — versão narrativa
O ar salgado das docas carregava o cheiro familiar de peixe, madeira encharcada e suor humano. Kaor ajustou o peso da espada no cinto enquanto conduzia o grupo através da multidão matinal, repassando mentalmente os eventos recentes. Haviam sido contratados por pessoas cujos rostos já começavam a desfocar na memória, salvaram o menino Mogli de um destino incerto, mataram homens cujos nomes nunca saberiam. O barco de Bagheera rendera tesouros — moedas que tilintavam nos bolsos, objetos curiosos que ainda precisavam avaliar — mas o retrato que a cliente pedira permanecia ausente, talvez levado pela Morte em Nevo para algum lugar além do alcance de mortais.
Agora, com o mundo aberto diante deles como um mapa sem bordas, haviam escolhido seguir uma das missões disponíveis. Pedro Poli Rocha mencionara o nome com um misto de respeito e cautela: Cassandra Lucre.
Eles a encontraram exatamente onde Pedro dissera que estaria, junto ao píer mais movimentado. Cassandra Lucre era o tipo de mulher que não precisava levantar a voz para ser ouvida. Usava roupas práticas de viajante, mas havia algo na forma como as vestia — talvez a postura, talvez o jeito como seus dedos descansavam no cinto — que sugeria alguém acostumada a comandar, não apenas a pedir. Ao vê-los se aproximando, ela dispensou os marinheiros com quem conversava com um gesto casual da mão, como quem afasta moscas.
Seus olhos percorreram o grupo com a eficiência de quem avalia mercadoria.
"Hum," disse ela, e havia uma nota de diversão em sua voz. "Pelo visto são as iscas que Pedro me passou." Ela estendeu a mão. "Prazer, eu sou Cassandra Lucre."
Kaor deu um passo à frente, aceitando o aperto de mão. Apresentou os companheiros — Rô, Amon, Mogli, Simas — e ela assentiu para cada um, registrando nomes e rostos com a precisão de quem joga um jogo de longo prazo.
"Eu esperava um pouco mais," ela disse, e havia sinceridade naquilo, não crueldade. "Mas acho que vai ser o suficiente."
Suficiente para quê, ela não especificou imediatamente. Em vez disso, cruzou os braços e inclinou-se contra um barril, estudando-os por mais um momento antes de falar.
"Eu possuo um mapa," começou ela, e a palavra caiu entre eles como uma moeda de ouro jogada numa mesa de jogo. "Um mapa do tesouro da Ilha Ruína."
Mogli, que havia estado distraído observando Diluth escalar os caixotes próximos, virou a cabeça abruptamente.
"A ilha recebeu esse nome," continuou Cassandra, "porque foi abandonada há séculos. Infestação de monstros da ferrugem — criaturas que se alimentam de ferro como cupins de madeira. Nunca deixaram a ilha. Atacam todas as expedições que tentam explorá-la." Ela fez uma pausa, deixando a informação assentar. "No centro da ilha existe uma antiga pirâmide que era o templo do deus do sol. Algumas informações que levantei dizem que esse templo também era o cofre dos nativos."
"E os monstros da ferrugem?" perguntou Mogli, olhando para a espada de ferro no cinto de Kaor, depois para sua própria lança. "Nossas armas são de ferro."
Cassandra hesitou — foi apenas uma fração de segundo, o peso de uma respiração — antes de responder. "Nunca ouvi falar de um monstro da ferrugem que nadasse. Se o barco ficar em alto mar, longe da encosta, ficará tudo bem." Ela olhou para as armas novamente. "Quanto às armas de ferro... realmente chamarão atenção. Terão que ter cuidado."
Amon observava Cassandra com a atenção de quem aprendera a ler pessoas nas barracas de mercado de Ilha Estrela. Ela era extraordinariamente controlada — cada palavra pesada, cada gesto medido — mas por duas frações de segundo, algo atravessou seu rosto. Espanto, talvez. Como se algo a tivesse surpreendido. Então a máscara de confiança retornou, perfeita como antes.
"A proposta é simples," disse Cassandra. "Viajamos juntos até a ilha, exploramos juntos, dividimos o tesouro meio a meio."
Houve discussão, naturalmente. Amon questionou os termos, Kaor quis saber sobre suprimentos, Rô perguntou sobre a rota. Cassandra respondeu a tudo com paciência calculada, como professora lidando com alunos promissores mas inexperientes.
Finalmente, ela estendeu a mão novamente. "Então, quem é o capitão?"
Kaor apertou sua mão sem dizer nada. Os outros seguiram o exemplo, um por um, selando o acordo com o peso de palmas contra palmas.
"Temos um acordo," disse Cassandra, e havia satisfação em sua voz. "Viajaremos juntos, exploraremos a ilha juntos e dividiremos o tesouro juntos."
Foi então que ela mencionou a Ilha Trapaça.
"Precisaremos fazer uma parada," disse Cassandra, como quem menciona um detalhe menor. "Meu mapa está guardado lá."
"Guardado?" repetiu Mogli.
"Num cofre," confirmou ela. "A Ilha Trapaça fica no caminho. Precisaremos repor mantimentos de qualquer forma."
"E vai sozinha buscar o mapa enquanto esperamos no barco?" perguntou Mogli.
Cassandra sorriu — não era um sorriso cruel, mas havia nele uma firmeza que não admitia negociação. "Amor, eu sei me cuidar. Você não precisa se preocupar comigo. Não vou revelar a localização do meu cofre valioso, se é isso que está pensando."
Amon tentou ler suas intenções, procurando nas micro-expressões de seu rosto alguma pista do que ela realmente planejava. Mas Cassandra Lucre era uma das pessoas mais indecifráveis que já encontrara. Mesmo assim, algo no fundo de seu estômago — aquela voz que seu pai chamava de instinto de mercador — dizia que ela roubaria o mapa e os deixaria em apuros.
Ele guardou essa suspeita para si mesmo.
Cassandra usou parte de seu próprio dinheiro para comprar suprimentos: travesseiros (porque, como ela disse, não havia razão para sofrer desnecessariamente), mantimentos frescos, quatro caixas de provisões e um barril grande de água. O grupo carregou tudo para o barco enquanto Mogli e Kaor entravam numa discussão filosófica sobre se um barril de água boiaria no mar.
"Madeira encharca," argumentava Mogli com a convicção de quem crescera próximo ao oceano.
"Mas água salgada é diferente de água doce," tentava explicar Kaor, que sabia disso por razões que não conseguia articular completamente. "Tem mais... tem mais sustentação."
"Madeira. Encharca."
Simas, carregando a última caixa, revirou os olhos e subiu a prancha.
A viagem até a Ilha Trapaça levaria seis dias. O barco pequeno — que Rô insistia em não nomear, como se dar-lhe um nome fosse admitir apego — cortava as ondas com eficiência surpreendente. Simas passava horas examinando cada tábua, cada corda, cada prego, familiarizando-se com a embarcação como um médico com um novo paciente.
Nos primeiros dias, acostumaram-se uns aos outros e a Cassandra. Ela revelou-se uma pessoa de vasto conhecimento, embora grande parte dele fosse do tipo que não servia para nada prático. Sabia os nomes de estrelas que ninguém usava para navegação, conseguia identificar tipos de madeira pelo cheiro, conhecia receitas de pratos de culturas extintas.
"Você sabe muita coisa inútil," observou Mogli no segundo dia, sem malícia.
"Conhecimento nunca é inútil," respondeu Cassandra, mas havia um traço de melancolia em sua voz. "Apenas... mal aplicado, às vezes."
Após algum tempo, a rotina tornou-se monótona. O oceano era vasto e vazio, o céu uma extensão azul imutável. Diluth passou a maior parte do tempo explorando cada centímetro do barco, ocasionalmente roubando comida quando ninguém olhava.
No terceiro dia, Rô avistou algo no horizonte.
"Vela," anunciou ele, apontando.
Não era bem uma vela — conforme se aproximaram, viram que era uma embarcação estranha, mais larga que comprida, como um banheirão flutuante. Uma bandeira amarela tremulava no mastro: comércio.
"Mercado flutuante," disse Cassandra. "Companhia Marini, provavelmente."
Eles ajustaram o curso. Conforme se aproximavam, um homem alto e esguio apareceu no parapeito. Sua pele tinha um tom rosado, e dois chifres curvos emergiam de sua testa — um tiefling. Ele acenou com entusiasmo exagerado.
"Olá, rapazes! Senhorita!" Sua voz carregava o tom musical de vendedor experiente. "Nós somos da companhia Marini, eu me chamo Kelmore Marini. Bem-vindos ao nosso humilde estabelecimento flutuante!"
Kaor olhou para Diluth, que estava pendurada no mastro observando tudo com interesse símio. "Vocês trocam animais?"
Kelmore seguiu o olhar de Kaor e riu. "Depende do animal, amigo. Mas geralmente preferimos mercadorias mais... convencionais."
Amon lembrou-se do fonógrafo — aquela máquina estranha que haviam encontrado no barco de Bagheera. "Trocamos um fonógrafo?"
"Fonógrafo!" Os olhos de Kelmore brilharam. "Agora isso sim é interessante. Deixem-me ver."
Diluth, que passara dias obsessivamente girando a manivela e ouvindo as mesmas músicas, mal olhou quando eles trouxeram o aparelho. Sua atenção estava completamente voltada para a bandeira de Rô, que ele mantinha cuidadosamente dobrada entre seus pertences.
Kelmore examinou o fonógrafo com mãos experientes, testando a manivela, inspecionando a agulha. "Está em boas condições. Posso oferecer 250 peças de ouro em madeira preparada para barco."
Houve breve discussão. Simas calculou mentalmente — era um oitavo do necessário para melhorar o barco significativamente, mas madeira preparada valia mais que madeira comum. Aceitaram a troca.
Então Kaor teve uma ideia.
Ele pegou os bonequinhos de concha que Mogli fizera durante as horas ociosas no mar — pequenas figuras toscas, mais sugestivas que detalhadas. "Quanto daria por estes?"
Kelmore pegou um, virando-o na luz. "São... interessantes."
"Extremamente úteis para didática e ensino," disse Kaor com seriedade absoluta. "Para contar histórias, ensinar crianças. Cinquenta moedas de ouro."
Kelmore não riu — ele era profissional demais para isso — mas havia diversão em seus olhos. "Amigo, eu tenho algo que talvez queira ver." Ele desapareceu por um momento e voltou com fantoches de tecido elaborados, com faces bordadas e roupas coloridas. "Vendo estes por cinco moedas de prata. São bem mais... desenvolvidos para propósitos didáticos."
Kaor estudou os fantoches, depois os bonequinhos de concha, depois os fantoches novamente. Finalmente assentiu, reconhecendo a derrota. Comprou um fantoche de urso e o deu a Mogli.
"Para suas histórias," disse ele. "Será mais útil."
Mogli pegou o fantoche, colocou a mão dentro, fez o urso acenar. Um sorriso lento atravessou seu rosto.
Despediram-se do mercado flutuante e seguiram viagem, agora com madeira extra amarrada no convés e um fantoche de urso que Mogli já começava a tratar como membro da tripulação.
O tédio retornou no quarto dia. Cassandra, recostada contra os caixotes com um travesseiro atrás da cabeça, quebrou o silêncio.
"Rô," disse ela. "Conte-me sua história."
Rô estava no leme, mantendo o curso com a facilidade de quem nascera fazendo aquilo. Ele olhou para ela, depois para o horizonte, considerando.
"Não há muito para contar," disse ele finalmente. "Cresci num farol. Fui encontrado por um velho chamado Edmond após um naufrágio. A única coisa que sobrou do barco afundado era eu mesmo." Ele fez uma pausa. "E uma bandeira."
"Posso vê-la?" perguntou Cassandra.
Rô hesitou, depois pegou a bandeira cuidadosamente dobrada. Desdobrou-a — o tecido estava desbotado mas ainda inteiro, com um símbolo que ninguém conseguia identificar.
Cassandra estudou-a por um longo momento. "Nunca vi isso antes," disse ela.
Foi então que todos perceberam: a música havia parado.
Diluth estava completamente imóvel nos caixotes, encarando a bandeira com intensidade desconcertante. Lentamente, ela desceu, movendo-se com propósito incomum para uma criatura geralmente caótica. Sentou-se no colo de Rô e estendeu a mão, tentando tocar a bandeira.
"Ela reconhece," disse Kaor, observando. "Reconhece o símbolo."
Rô guardou a bandeira cuidadosamente. Diluth não voltou para o fonógrafo. Em vez disso, começou a seguir Rô por todo lado, nunca mais de alguns passos de distância, como se ele fosse agora seu ponto de referência no mundo.
Cassandra quebrou o momento. "E você, Amon? Qual é sua história?"
Amon sorriu — o sorriso diplomático que aprendera de seu pai. "Que tal você contar a sua primeiro? Seria bom para a convivência, conhecer nossa parceira de negócios."
Cassandra o estudou, reconhecendo a manobra. Por um momento pareceu que recusaria. Então suspirou.
"Muito bem." Sua voz ficou mais plana, perdendo o tom musical. "Sou uma elfa das profundezas. Cheguei às ilhas Freeride há cem anos com um companheiro." Ela olhou para o mar. "Ele morreu de escorbuto."
A forma como disse aquilo — rápido, cortante, como quem arranca um espinho — deixou claro que não haveria elaboração. Todos sentiram a fragilidade por trás das palavras, a dor antiga que tempo suficiente não havia curado.
Amon, percebendo que pressionara o suficiente, ofereceu sua própria história em troca. "Venho de uma família de mercadores da Ilha Estrela. Meus pais faleceram. Agora procuro meu irmão, que desapareceu viajando pelo mundo."
Kaor foi ainda mais sucinto. "Estava num barco com um capitão manipulador que me maltratava. Entrei numa batalha, ganhei um prêmio. Agora busco esse homem."
Houve silêncio após aquilo — não desconfortável, mas pensativo. Cada um processando as histórias dos outros, adicionando camadas de compreensão a rostos que começavam a se tornar familiares.
Foi Mogli quem quebrou o silêncio, pegando seus bonequinhos de concha e o novo fantoche de urso.
"Querem ouvir minha história?" perguntou ele, e havia uma qualidade teatral em sua voz.
Todos se voltaram para ele. Mogli arranjou os bonequinhos como atores num palco improvisado.
"Fui abandonado durante uma tempestade," começou ele, movendo uma figura pequena. "Uma tempestade poderosa, num atol próximo a um círculo de druidas." Ele pegou outro bonequinho. "Acabei sendo criado por uma alcateia de leões marinhos. Mamei seu leite grosso e gorduroso."
Cassandra abriu a boca, depois fechou, decidindo não comentar sobre a biologia questionável daquilo.
"Eventualmente, os druidas me encontraram. Decidiram me orientar. Fui criado por um velho druida chamado Balu." Mogli pegou o fantoche de urso. "Ele me ensinou que da natureza só se colhe o necessário. Passava a maior parte do tempo em forma de urso, coçando-se nas bananeiras."
Ele fez o fantoche de urso coçar-se contra um caixote imaginário. Simas soltou uma risada apesar de si mesmo.
"Um navio visitava regularmente o atol," continuou Mogli, sua voz ficando mais suave. "Para pegar mercadorias dos druidas — frutas modificadas magicamente. Abacaxis triplos. Laranjas azedas que curavam doenças." Ele fez uma pausa. "Esse navio era tripulado pelo Capitão Bagheera."
Cassandra se endireitou ligeiramente.
"Bagheera me ensinou sobre o mundo exterior. Apostas. Rinhas de pássaros. Muitas outras maravilhas." Mogli baixou os bonequinhos. "Eu queria conhecer o resto do mundo. Me aventurar."
Houve silêncio quando ele terminou. Cassandra estava olhando para ele com uma expressão que ninguém conseguia decifrar completamente.
"Você disse que conhecia o Bagheera," ela disse finalmente, e sua voz estava estranhamente gentil. "Eu sinto muito. Sinto muito que ele tenha ido. Era um bom capitão."
"Mas ele está desaparecido," protestou Mogli. "Não quer dizer que morreu."
"Ah, querido." Cassandra estendeu a mão, quase tocando seu ombro antes de se retrair. "Sua esperança é louvável."
Mas havia algo em seus olhos — conhecimento, talvez, ou memória — que sugeria que ela sabia mais do que dizia.
Todos fizeram testes de percepção no quinto dia. Simas, cujos olhos estavam sempre vasculhando o horizonte em busca de problemas, foi o primeiro a ver.
"Destroços," anunciou ele, apontando.
No horizonte, menos de meia milha de distância, havia os restos de um navio. Madeiras flutuavam, um mastro boiava meio submerso, caixotes se espalhavam pela superfície da água como dentes quebrados.
"Rapaziada," disse Rô, sua mão apertando o leme com mais força. "Aparentemente tem algum barco que afundou aqui. Então eu acho melhor a gente ficar meio esperto."
Amon viu oportunidade onde outros viam perigo. "Vai ter madeira pra gente poder repor o nosso barco!"
Simas concordou, seus olhos já calculando quantas tábuas poderiam salvar. Mas Rô balançou a cabeça.
"Sim, mas se ele afundou, alguma coisa afundou ele, né?"
Houve debate. Amon argumentou sobre o "espírito aventureiro", sobre transformar o barquinho em "embarcação, numa potência com 300 canhões". Kaor queria saber se havia corpos. Cassandra permaneceu significativamente silenciosa.
Finalmente, decidiram se aproximar com cautela. Ajustaram o curso, reduzindo a velocidade conforme os destroços se tornavam mais claros. O barco havia encalhado num coral bem abaixo da superfície — eles podiam ver a madeira escura do casco presa nas formações rochosas.
"Cuidado," alertou Simas. "Não queremos encalhar também."
Eles reduziram ainda mais a velocidade, navegando com cuidado entre os destroços flutuantes. Foi então que Simas sentiu — uma vibração no casco. Pequenas vibrações, como dedinhos batendo.
"Pessoal." Sua voz estava tensa. "Estou com um mau pressentimento. Tem algo encostando no nosso navio."
Todos se viraram para olhar para a água. Por um momento não viram nada além de destroços e reflexos de sol. Então algo se moveu — algo grande, vermelho-alaranjado, subindo pela lateral do casco com garras que faziam pequenos sons de raspagem contra a madeira.
Um caranguejo. Do tamanho de um cachorro grande. Suas garras eram grossas como braços humanos, suas antenas se moviam freneticamente, e seus olhos em hastes fixaram-se no grupo com fome primitiva.
"Merda," disse alguém.
Então o caranguejo alcançou a borda do barco e começou a subir.
Simas reagiu primeiro, pegando sua pregadeira — aquela ferramenta que ele modificara para funcionar como besta improvisada. Mirou no caranguejo mais próximo e disparou. O prego voou através do ar e cravou-se na carapaça do caranguejo com um som satisfatório de metal contra quitina. A criatura soltou um som sibilante, mas não parou de subir.
Mogli avançou, suas mãos já traçando os gestos que Balu lhe ensinara. Palavras druídicas saíram de sua boca — não uma língua que se falava, mas uma que se sentia, carregada de poder primordial. Trovão explodiu do ar ao seu redor.
A onda de força atingiu dois caranguejos simultaneamente. Um foi lançado de volta para a água com tanta força que fez um geyser ao cair. O outro conseguiu se agarrar à borda por um momento antes de suas garras perderem a aderência e ele também cair.
Mas havia mais. Rô viu outro subindo pelo outro lado do barco. Sua espada curta estava em sua mão antes que ele conscientemente decidisse desembainhá-la. Ele avançou, o convés se movendo sob seus pés com a familiaridade de chão firme, e cortou. A lâmina encontrou a junção entre carapaça e perna. O caranguejo sibilou, hemoglobina azul espirrando.
Kaor não usou armas. Seus punhos eram suficientes — haviam sido suficientes em rinhas de taverna, em brigas de rua, em todos os momentos em que a violência fora necessária. Ele socou a carapaça do caranguejo uma vez, duas vezes, sentindo a quitina rachar sob seus nós dos dedos. O caranguejo parou de se mover.
Então os outros atacaram.
Eles vinham de todos os lados agora — os dois que Mogli derrubara haviam retornado, e mais estavam subindo. Um caranguejo alcançou Rô, suas garras fechando-se em seu braço. Ele sentiu a pressão, a dor aguda de quitina cortando pele. Sangue escorreu por seu braço.
Outro alcançou Kaor. As garras eram surpreendentemente rápidas, fechando-se em sua perna. Ele grunhiu, mas não caiu.
Dois alcançaram Mogli simultaneamente. Ele tentou recuar, mas o convés era pequeno e não havia para onde ir. Uma garra fechou-se em seu ombro. A outra em sua perna. Dor explodiu através de seu corpo — não a dor limpa de um corte, mas a dor esmagadora de osso sendo comprimido, de carne sendo perfurada por pontas serrilhadas.
Suas pernas cederam. Ele caiu no convés, o mundo girando, sons ficando distantes. Sangue se espalhou sob ele, vermelho demais, muito demais.
"Mogli!" A voz de Amon cortou através da confusão.
Amon estava se movendo, suas mãos traçando símbolos no ar enquanto palavras de poder saíam de sua boca. Luz dourada envolveu Kaor, Rô e o corpo caído de Mogli — bênção divina, proteção tecida de fé e vontade. Então ele estava ao lado de Simas, tocando seu ombro, canalizando energia curativa através de suas mãos. As feridas de Simas fecharam parcialmente, pele se regenerando.
Cassandra se moveu como uma dançarina, seu chicote desenrolando-se com um estalo. Ele envolveu-se ao redor de um caranguejo, apertando. A criatura sibilou e parou de se mover.
Simas recarregou sua pregadeira com mãos que tremiam apenas ligeiramente. Mirou. Disparou. Desta vez o prego penetrou direto através do olho do caranguejo, emergindo pelo outro lado. A criatura convulsionou e ficou imóvel.
Ele então se moveu rapidamente para ficar próximo de Rô, cobrindo seu flanco.
No convés, Mogli lutava contra a escuridão. Seu corpo queria desistir, queria se render à dor e ao choque. Mas algo nele — teimosia, ou memória de Balu dizendo que a natureza não desperdiçava nada, nem mesmo vida — se recusou. Ele se agarrou à consciência por um fio, sua respiração superficial mas presente.
Rô atacou novamente, a bênção de Amon fazendo sua lâmina brilhar fracamente. Ele cortou através da perna de um caranguejo, depois através de sua carapaça. A criatura caiu em pedaços.
Kaor socou com ambas as mãos, um-dois, um-dois, ritmo de lutador de rua. Quitina rachou, depois quebrou completamente. Outro caranguejo morto.
Mas ainda havia um. Ele avançou sobre Kaor, garras abertas. Elas fecharam-se em seu braço, apertando. Kaor sentiu algo ranger — não quebrar, não ainda, mas perto demais.
Amon largou sua arma e correu para Mogli. Suas mãos encontraram o pulso do garoto, procurando pulso. Estava lá — fraco, irregular, mas presente. Ele pressionou suas mãos contra as feridas piores, aplicando pressão, usando conhecimento mundano onde magia não alcançava. O sangramento diminuiu, depois parou.
Mogli ainda estava inconsciente, mas estável.
Cassandra chicoteou novamente, mas desta vez seu alvo se moveu e o chicote passou por cima dele, quase acertando Rô. "Desculpa!" ela gritou.
Simas atirou outro prego. Acertou, mas a criatura era resistente. Ela continuou avançando.
Rô tentou cortar, mas sua lâmina encontrou apenas ar. O caranguejo era rápido, mais rápido do que algo daquele tamanho deveria ser.
Foi Kaor quem finalmente o matou. Ele avançou, ignorando a dor em seu braço, e socou com toda a força que conseguiu reunir. Seu punho atravessou a carapaça, penetrando profundamente. Ele sentiu coisas macias e úmidas se romperem sob seus nós dos dedos. O caranguejo convulsionou uma vez, depois ficou imóvel.
Silêncio caiu sobre o barco — não o silêncio pacífico do mar aberto, mas o silêncio tenso após violência, carregado de respirações pesadas e dor latejante.
Mogli começou a se mexer, seus olhos piscando abertos. Amon estava ao seu lado imediatamente, ajudando-o a sentar.
"Devagar," disse Amon. "Você quase morreu."
Mogli tocou seu ombro, sentindo as feridas parcialmente curadas. "Quase," concordou ele, e havia algo em sua voz — não medo, exatamente, mas nova compreensão de quão frágil a vida poderia ser.
Eles ficaram ali por um momento, no convés manchado de sangue (vermelho e azul misturados), cercados por carapaças quebradas e o cheiro de mar e morte. Cassandra foi a primeira a falar.
"Bem," disse ela, e havia aprovação genuína em sua voz. "Talvez vocês sejam suficientes afinal."
Simas já estava examinando o casco, procurando danos. Rô verificou o leme. Kaor começou a jogar os corpos dos caranguejos de volta ao mar, um por um.
E conforme o barco retomou seu curso, afastando-se dos destroços e das águas perigosas, cada um deles sentiu algo mudar. Não eram mais estranhos trabalhando juntos por conveniência. Haviam sangrado juntos. Haviam salvado uns aos outros.
Eram uma tripulação agora.
O sol começou a se pôr, tingindo o céu de laranja e vermelho. A Ilha Trapaça ainda estava a um dia de distância. E além dela, a Ilha Ruína esperava com seus segredos antigos e seus monstros de ferrugem.
Mas isso era problema para amanhã.
Sessão 4
A Ilha Ruína
Sessão 4 — versão narrativa
Os primeiros raios de sol cortaram a névoa matinal como lâminas de ouro líquido, e a ilha-ruína emergiu do horizonte com a lentidão de uma revelação. Ainda faltavam horas de viagem, mas já era possível distinguir sua forma — um mini-vulcão coberto de vegetação densa, exceto por um ponto no centro onde se erguia algo vertical, algo construído por mãos que não eram mais.
Kaor ficou na proa, os olhos semicerrados contra o brilho crescente da água. A ilha parecia respirar com a névoa que se dissipava. Atrás dele, Cassandra ajustou o chapéu pela terceira vez em cinco minutos, já suando embora o sol mal tivesse nascido.
— Vai ser um dia longo — murmurou Amon, ao lado de Simas.
A pregadeira assentiu, os dedos tamborilando no cinto onde guardava seus pregos. Ela não dissera nada desde que avistaram a ilha, mas Amon conhecia aquele silêncio. Era o silêncio de quem calculava distâncias, rotas de fuga, quantos pregos tinha e quantos precisaria.
Conforme se aproximavam, a orla de areia ficou visível — uma faixa pálida contra o verde escuro da vegetação. E então, como se a ilha tivesse decidido revelar seus segredos de uma só vez, a cidade em ruínas se mostrou. Níveis e mais níveis de construções de pedra, subindo em degraus até a pirâmide central que dominava o topo como uma coroa quebrada.
Havia também um cais. Ou o que restava dele.
Rowan foi o primeiro a vê-lo claramente.
— Não vamos conseguir ancorar ali.
Os pilares de pedra ainda estavam firmes, mas toda a madeira tinha apodrecido ou sido arrancada pelo tempo e pela água. O cais era apenas uma promessa não cumprida, um esqueleto de intenções.
— Monstros da ferrugem — disse Simas, de repente. Sua voz era baixa, mas todos se viraram. — Insetos. Comem metal. Têm faro aguçado para detectá-lo remotamente.
Mogli franziu o cenho.
— Que tal passar óleo fedorento nas armas? Disfarçar o cheiro de ferro?
Kaor balançou a cabeça.
— Se o faro é tão sensível assim, não vai funcionar.
— Então o que—
Cassandra não esperou pela resposta. Simplesmente tirou o chapéu, entregou-o a Juan sem olhar para ele, e mergulhou.
O grupo ficou parado por um instante, vendo-a nadar em direção à praia com braçadas fortes e determinadas. Então Kaor suspirou, verificou as correias de seu equipamento, e pulou também.
Um por um, seguiram.
A areia estava quente sob as botas quando desembarcaram. Kaor se agachou no que restava do cais, os dedos correndo pelas pedras gastas. Procurava marcas, sinais de violência recente, qualquer coisa que indicasse o que tinha destruído a estrutura. Encontrou apenas o trabalho paciente da erosão — décadas, talvez séculos de água e vento.
Os pilares de pedra permaneciam firmes. Era a madeira que tinha falhado, como sempre falhava.
— Vamos — disse ele, levantando-se.
A estrada que subia pela ilha era curiosamente lisa, embora coberta de vegetação que crescia nas fissuras. Dava a impressão de estar sempre subindo uma montanha, cada passo um esforço contra a gravidade e o calor crescente.
Cassandra começou a reclamar depois da primeira hora.
Não eram reclamações altas — apenas um murmúrio contínuo de desconforto, suor, calor insuportável. Kaor a ignorou por algum tempo, focado na trilha à frente. Então, sem dizer nada, pegou uma folha grande de palmeira que crescia na beira da estrada, arrancou-a com um puxão seco, e entregou a ela.
Cassandra olhou para a folha. Olhou para Kaor. Ele já tinha se virado e continuava subindo.
Ela pegou a folha e a usou como guarda-sol, desconfortável mas grata, sem saber bem como se sentir sobre o gesto.
As horas se arrastaram. O sol subiu até ficar diretamente acima deles, transformando a ilha inteira numa fornalha verde. Quando finalmente chegaram às primeiras ruínas da cidade, todos estavam encharcados de suor e sedentos.
A cidade era construída em níveis, como Rowan tinha descrito de longe. Degraus e plataformas de pedra subiam em camadas até a pirâmide no topo. As construções eram simples — paredes grossas, aberturas para portas e janelas, telhados desabados. Mas havia uma ordem nelas, um planejamento que falava de uma civilização que sabia o que estava fazendo.
Mogli parou de repente, o nariz no ar. Então sorriu.
— Água.
Ele os guiou por entre as ruínas até uma fonte no que tinha sido uma praça ou pátio. A água ainda jorrava, embora fraca, de uma boca de pedra esculpida em forma de rosto humano. Mogli também apontou para um edifício no segundo andar, com paredes mais intactas que os outros.
— Ali. Bom lugar para acampar.
Mas quando se aproximaram da fonte, o cheiro os atingiu.
Ferro. Forte, metálico, quase sufocante.
A água que jorrava era esverdeada, amarelada, manchada de ferrugem. Cassandra fez uma careta.
— Não vamos beber isso.
Simas se aproximou, estudando a água com atenção clínica. Kaor pegou um dos pregos que ela guardava no cinto — ela não protestou — e jogou-o na fonte.
O prego afundou na água turva e desapareceu.
Foi quando Kaor ouviu a movimentação.
Vinha de trás de Mogli. Algo leve, rápido, que de repente acelerou.
— Atrás de você!
Eles vieram de todas as direções ao mesmo tempo.
Cinco monstros da ferrugem, emergindo das ruínas como pesadelos articulados. Eram grandes — do tamanho de cães, mas com a forma distorcida de insetos. Centopeia misturada com escorpião misturada com barata, com bigodes ou antenas gigantescas que se moviam como mãos, sentindo o ar, procurando metal.
Kaor foi o primeiro a reagir. Seus punhos já estavam em movimento antes que seu cérebro terminasse de processar o perigo. Acertou um dos monstros duas vezes — golpes rápidos, precisos, que fizeram a criatura recuar com um som agudo e irritado. Então usou um ponto de foco para se desengajar, recuando três passos sem tirar os olhos do inimigo.
Mogli se transformou.
Foi instantâneo — um momento ele era um meio-orc, no próximo era um caranguejo gigante, com garras do tamanho de pás. Ele avançou sobre um dos monstros e o agarrou, as garras fechando-se ao redor do corpo quitinoso. A criatura tentou se soltar, contorcendo-se violentamente, mas as garras de Mogli não cederam.
Juan atacou o monstro preso, mas errou — a lâmina passou centímetros acima da cabeça da criatura.
Simas atirou um prego. Acertou. O monstro guinchei, um som metálico e errado.
Amon começou a cantar.
Não era exatamente uma canção — era mais como uma oração ritmada, palavras em uma língua antiga que poucos ainda lembravam. Luz dourada envolveu Simas e Rowan, uma benção que faria seus golpes mais certeiros, suas defesas mais firmes.
Os monstros contra-atacaram.
Um deles investiu contra Simas, mandíbulas estalando, mas ela se desviou. Outro tentou alcançar a adaga de Kaor com suas antenas — ele sentiu a magia estranha nelas, algo que queria desfazer o metal, transformá-lo em ferrugem e pó. Mas seus reflexos foram mais rápidos. A adaga permaneceu intacta.
Um terceiro monstro atacou Kaor novamente e errou.
Cassandra estendeu o braço e o chicote se desenrolou como uma serpente viva. O estalo foi alto, nítido. O chicote envolveu um dos monstros e o puxou com força. A criatura foi arremessada contra uma parede de pedra com um impacto úmido. Não se levantou.
— Kaor! — ela gritou, e jogou algo para ele.
Ele pegou no ar. Era um pequeno medalhão que brilhava levemente. Inspiração Bárdica. Ele podia sentir a magia nele, uma promessa de sorte, de precisão, de um momento em que seus movimentos seriam perfeitos.
O combate continuou, caótico e brutal. Os monstros não lutavam como predadores normais — eles lutavam como criaturas desesperadas, famintas, obcecadas com o metal que carregavam. Suas antenas procuravam armas, armaduras, qualquer coisa que pudessem destruir.
Kaor pegou um frasco de óleo de sua mochila e o atirou em um dos monstros. O frasco se estilhaçou e o óleo se espalhou — não cobriu completamente a criatura, mas o chão ao redor ficou escorregadio e brilhante.
Simas viu a oportunidade. Estendeu a mão e murmurou uma palavra. Uma faísca saltou de seus dedos e o óleo no chão se incendiou.
As chamas subiram, alaranjadas e famintas. O monstro recuou, mas não rápido o suficiente. O fogo lambeu suas pernas quitinosas.
Mogli esmagou o monstro que tinha agarrado. Ouviu-se um estalo horrível e a criatura ficou imóvel. Ele se moveu para outro alvo, as garras de caranguejo ainda gotejando uma substância amarelada que não era exatamente sangue.
Rowan finalmente conseguiu um golpe limpo. Sua espada desceu em um arco perfeito e acertou um dos monstros bem no centro das costas. Foi um golpe crítico, o tipo de ataque que todo guerreiro sonha em realizar.
Mas então as antenas do monstro se enrolaram na lâmina.
Rowan sentiu a magia estranha puxando, tentando desfazer o aço, transformá-lo em nada. Seus olhos se arregalaram. Não. Não essa espada. Não agora.
Ele tinha três pontos de Lucky guardados. Usou um.
A realidade tremeu levemente, se reajustou. As antenas escorregaram da lâmina. A espada permaneceu inteira.
Amon continuou cantando, invocando chamas sagradas que caíam do nada e queimavam os monstros com fogo divino. Não era um fogo comum — era mais limpo, mais puro, e os monstros recuavam dele como se fosse algo fundamentalmente errado para eles.
Cassandra matou o último.
Seu chicote se enrolou ao redor do pescoço da criatura e puxou. Houve um estalo. O monstro caiu.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pela respiração pesada do grupo e pelo crepitar do fogo que ainda queimava no chão.
O cheiro de ferro e sangue ficou muito mais forte no ar.
Ninguém falou por um longo momento. Apenas ficaram ali, recuperando o fôlego, verificando armas e ferimentos.
Kaor foi o primeiro a se mover. Agachou-se ao lado de um dos monstros mortos, estudando-o. As antenas ainda se mexiam levemente, um reflexo pós-morte. Ele as evitou cuidadosamente.
— Precisamos sair daqui — disse Simas. — O cheiro vai atrair mais.
Kaor assentiu. Começou a procurar rastros, os olhos varrendo o chão ao redor das ruínas. Encontrou alguns — marcas onde as criaturas tinham cortado plantas e terra com suas garras. Mas as plantas já estavam se recuperando. Os rastros eram antigos.
— Não é um habitat comum para eles — disse ele. — Estavam aqui por algum motivo.
— O metal na água — sugeriu Mogli, de volta à forma humanoide. — Talvez se alimentem disso.
— Ou talvez estivessem esperando por nós — murmurou Cassandra.
Ninguém respondeu. A ideia era desconfortável demais para explorar.
Decidiram continuar subindo. A pirâmide no topo da ilha parecia mais segura que as ruínas inferiores — mais alta, mais isolada, mais longe dos monstros e da fonte contaminada.
A escadaria que levava até ela era íngreme. Muito íngreme. Trinta metros de pedra lisa subindo em ângulo acentuado, cada degrau alto demais para ser confortável. Mogli notou ninhos de pássaros nos espaços entre as pedras — pequenos amontoados de gravetos e penas que falavam de vida, de coisas que ainda faziam seus lares aqui.
A subida foi exaustiva. Quando finalmente chegaram ao topo, todos estavam ofegantes.
A porta estava aberta.
Era uma única abertura, retangular e escura, levando para o interior da pirâmide. Não havia decorações, não havia avisos. Apenas a entrada, convidativa ou ameaçadora, dependendo de como se olhava.
Amon invocou luz. Seu espelho de mão começou a brilhar com uma luminosidade dourada, quente, que empurrava as sombras para trás.
Entraram.
O hall era completamente liso. Paredes sem gravuras, sem marcas, sem qualquer indicação de quem tinha construído aquilo ou por quê. No centro havia um pedestal de pedra, e sobre ele...
Cacos de vidro.
Estavam espalhados ao redor do pedestal, brilhando levemente à luz de Amon. Kaor se aproximou, agachou-se, pegou um dos cacos. Era parte de um espelho, percebeu. Um espelho grande, quebrado em dezenas de pedaços.
— Era para refletir luz — disse Amon, estudando o pedestal e o teto acima dele. Havia uma abertura no topo da pirâmide, deixando entrar um raio de sol que caía diretamente sobre o pedestal. — Se o espelho estava aqui, devia iluminar outro lugar.
Mogli se aproximou, olhando os cacos com interesse.
— Alguém pequeno poderia entrar em algum buraco para ajudar?
Kaor virou o caco em suas mãos, deixando a luz brincar sobre a superfície. O espelho era maior que um espelho de mão comum. Muito maior. Quando inteiro, provavelmente tinha meio metro de diâmetro.
— Podemos consertar — disse Simas, de repente.
Todos olharam para ela.
— Tenho Mending.
Simas se ajoelhou ao lado do pedestal e começou a juntar os cacos. Suas mãos se moviam com cuidado, colocando cada pedaço em posição, reconstruindo o quebra-cabeça. Quando teve todos os cacos mais ou menos no lugar, começou o feitiço.
Mending não era magia espetacular. Não havia explosões de luz, não havia trovões. Era magia quieta, paciente, o tipo de magia que consertava coisas quebradas um pedaço de cada vez.
Cada pulso de poder fez os cacos vibrarem. Lentamente, eles começaram a se mover, deslizando uns em direção aos outros, as bordas se fundindo. O som era suave — um tinido delicado, como sinos de vidro.
Levou tempo. Simas trabalhou metodicamente, suor escorrendo por seu rosto, concentração absoluta. Mas finalmente, o último caco se encaixou no lugar.
O espelho estava completo.
Era um caleidoscópio. A superfície não era lisa — tinha facetas, ângulos, cada um refletindo luz de forma diferente. Quando o raio de sol do teto o atingiu, a luz explodiu em todas as direções, transformando o hall em um céu estrelado.
— Bonito — murmurou Cassandra.
Amon pegou seu espelho de mão, ainda brilhando com luz dourada, e o direcionou para o espelho grande. A luz se multiplicou, se fragmentou, encheu a sala inteira com pontos vibrantes de luminosidade.
Kaor colocou as mãos no espelho. O pedestal tinha uma base giratória, percebeu. Lentamente, começou a girá-lo no sentido horário.
As convergências de luz se moveram.
Conforme o espelho girava, os pontos de luz se reorganizavam, formando padrões no chão e nas paredes. E então, de repente, formaram imagens.
A primeira era uma serpente. Apareceu perto de Simas — uma silhueta sinuosa de luz, com olhos que pareciam brilhar mais intensamente que o resto.
Kaor continuou girando.
A segunda imagem era um olho. Grande, aberto, fixo. Apareceu ao lado de Kaor, projetado na parede lisa.
A terceira era um pássaro ou ave. Apontava para baixo, asas estendidas.
A quarta era uma flor. Apareceu perto da entrada, delicada e simétrica.
O grupo ficou em silêncio, estudando as imagens.
— As pistas do mapa — disse Rowan, de repente. — Lembram? "A serpente não deve ser seguida", "A ave não deve ser procurada", "A flor nasce e morre"...
— Mas "O olho revelou uma pequena fenda" — completou Amon.
Kaor saiu da frente do olho projetado. Amon se aproximou, os olhos estreitos, estudando a luz com atenção. Havia algo ali. Algo diferente.
No centro do olho, um filete de luz fora do padrão. Mais concentrado, mais definido.
Ele se ajoelhou e começou a soprar a poeira do chão. Lentamente, uma forma se revelou — uma ranhura fina, quase invisível. Uma entrada para fechadura, escondida sob décadas de poeira acumulada.
Amon pegou giz de sua mochila e começou a marcar o contorno. Primeiro o olho. Depois a fechadura. E então percebeu que havia mais linhas, formando um retângulo. Uma passagem. Sessenta centímetros por um metro, escondida no chão de pedra lisa.
— Aqui — disse ele. — Aqui é a entrada.
Rowan se aproximou da fechadura, agachando-se para examiná-la mais de perto. Amon murmurou uma benção — Guidance — e tocou o ombro de Rowan levemente. Uma sensação de clareza, de foco, se espalhou pela mente do guerreiro.
A fechadura não era como as fechaduras normais. A ranhura era maior — quase uma polegada de largura — e quando Rowan colocou o dedo dentro, tentando sentir o mecanismo, percebeu que era profunda. Muito profunda.
— Não é para uma chave convencional — disse ele. — É mais como... uma cunha. Algo que empurre para dentro.
Mogli teve uma ideia.
Transformou-se em polvo — uma mudança fluida, seu corpo se tornando macio e flexível. Enfiou um tentáculo na fechadura, sentindo o caminho. O mecanismo estava cerca de vinte centímetros para dentro. Ele podia sentir a cunha, podia sentir duas hastes de pedra que precisavam ser empurradas simultaneamente.
— Precisa de força — disse ele, voltando à forma humanoide. — E algo do formato certo.
Simas olhou para a lança de Kaor.
— Posso entortar a ponta. Fazer uma cunha.
Kaor hesitou apenas um momento, então entregou a lança. Simas segurou a ponta, murmurou as palavras de Mending, mas ao contrário — não consertando, mas moldando. O metal se dobrou, se transformou, até que a ponta da lança tinha a forma de uma cunha perfeita.
Kaor pegou a lança de volta, posicionou-a na fechadura, e empurrou.
Nada aconteceu.
Ele empurrou mais forte. Os músculos de seus braços se retesaram. Mas a lança não desceu.
— Deixa eu tentar — disse Rowan.
Juntos, colocaram peso na lança. Rowan fechou os olhos, concentrando toda sua força. E então, com um clique alto e satisfatório, a lança desceu vinte centímetros.
O mecanismo cedeu.
Amon estava prestes a pisar na plataforma marcada quando ela começou a se mover.
Não caiu — foi mais como um pêndulo, balançando para dentro e batendo do outro lado com um som profundo e oco. A abertura revelada mostrava uma queda de cerca de dois metros e o início de uma escada descendente.
Cassandra não esperou. Pendurou-se na borda, balançou uma vez, e fez uma cambalhota para dentro, aterrissando em pé com graça felina.
Kaor e Rowan a seguiram com saltos mais diretos. Mogli simplesmente subiu nas costas de Rowan como uma mochila, agarrando-se enquanto o guerreiro descia.
A escada era estreita e íngreme. Desceram cerca de três metros até chegarem a um novo salão.
A luz de Amon os precedeu, empurrando as sombras para os cantos. O salão era grande — maior que o hall acima. E as paredes não eram lisas.
Estavam cobertas de gravuras.
O grupo se espalhou, cada um estudando uma seção diferente. As imagens contavam uma história, perceberam. Uma história antiga, gravada em pedra para nunca ser esquecida.
A primeira imagem, no canto superior esquerdo, mostrava uma pessoa grande com máscara de demônio ou fera, apontando para a esquerda. Abaixo dela, pessoas com armas improvisadas — foices, pás, pedras — atacando agricultores que colhiam trigo. A violência era clara mesmo na pedra estilizada.
A segunda imagem, à direita superior, mostrava um sol com rosto gravado. Cinco pessoas — homem, mulher, mulher, homem, mulher — apontavam dedos para um quadro maior que mostrava uma mistura de biomas e pessoas. Criação. Eles estavam criando o mundo.
A terceira imagem, inferior, era perturbadora. Um esqueleto repartido em pedaços, com partes acorrentadas a cinco itens: um cálice, um coração, um bracelete, um anel, e outro objeto que era difícil de identificar.
A quarta imagem, à direita, mostrava uma fenda partindo do céu até a terra. À esquerda, pessoas com asas de anjo subindo em direção à luz. À direita, pessoas com máscaras de demônio caindo, descendo para a escuridão.
Amon se aproximou das gravuras, os dedos traçando as linhas com reverência.
— É a história da criação — disse ele, sua voz baixa. — A história dos nativos.
Ele começou a recitar, lembrando das lições que tinha aprendido, das histórias que tinha ouvido:
Um deus sol enviou cinco criadores para moldar o mundo. Mas um deles foi corrompido. Ordenou que parte da criação matasse o resto. O Criador interveio, separando os corrompidos — jogando-os no abismo — dos puros — elevando-os à celéstia.
O corrompido foi fragmentado. Cinco partes. Cinco relíquias.
Jogadas no abismo para nunca mais serem reunidas.
Kaor se lembrou das pistas do mapa. As pinturas mostrando a esfera — o sol — em posições diferentes. E a última pintura sem sol, apenas uma mão segurando uma chama. Onde o caçador tinha encontrado uma lâmpada de pedra.
— As relíquias — murmurou Simas. — Estamos procurando as relíquias.
Amon estudou a terceira imagem mais de perto. A pedra principal do colar no tronco do esqueleto fragmentado tinha algo estranho. Uma ranhura. Pequena, circular, como...
— Um botão — disse ele.
Todos olharam para ele.
Amon estendeu a mão. Seus dedos tocaram a pedra gravada. Havia uma depressão ali, definitivamente. Algo que podia ser pressionado.
Ele olhou para os outros. Cassandra deu de ombros. Mogli acenou com a cabeça. Kaor não disse nada, mas também não protestou.
Amon respirou fundo.
E apertou o botão.
Sessão 5
O Veneno da Pirâmide
Sessão 5 — versão narrativa
A luz das tochas tremeluzia contra as paredes de pedra enquanto o grupo se reunia ao redor das estátuas. Haviam acabado de resolver o enigma anterior, descendo para esta nova câmara através de uma passagem que se abrira no chão. O ar aqui era mais denso, carregado de poeira antiga e algo mais — um cheiro metálico que Amon não conseguia identificar.
O clérigo aproximou-se da estátua central, examinando o colar que pendia de seu pescoço. Três botões ornamentavam a peça — um no centro, dois nas laterais, tão bem disfarçados que quase pareciam apenas decoração. Seus dedos hesitaram sobre o botão central. Algo nele chamava a atenção, como se pedisse para ser pressionado.
"Talvez seja só apertar," murmurou, mais para si mesmo que para os outros.
Mogli observava de alguns passos atrás, seus olhos treinados pela vida selvagem captando cada movimento. Quando Amon pressionou o botão, o garoto viu algo que os outros perderam — uma minúscula nuvem de vapor ejetada diretamente no rosto do clérigo, tão rápida que poderia ter sido apenas um truque da luz.
Mas não era.
Amon piscou. Uma coceira leve começou em seus olhos, inocente a princípio, como se tivesse entrado poeira. Então a coceira se transformou em queimação. Seus olhos ardiam como se alguém tivesse jogado brasas vivas neles. Ele levou as mãos ao rosto, esfregando freneticamente, mas isso só piorou a sensação. O mundo ao seu redor escureceu — não gradualmente, mas de uma vez, como se alguém tivesse apagado todas as tochas simultaneamente.
Quando abriu os olhos novamente, não havia mais câmara, não havia mais companheiros.
Havia demônios.
Cinco deles, formando um círculo perfeito ao seu redor. Criaturas massivas, com garras do tamanho de espadas curtas e máscaras que pareciam feitas de osso enegrecido. Suas bocas se abriam em sorrisos impossíveis, mostrando fileiras de dentes irregulares. Amon reconheceu as formas — eram idênticas às figuras entalhadas nas estátuas que haviam visto nas câmaras anteriores, mas agora vivas, pulsantes, famintas.
Uma das garras veio em sua direção.
O treinamento tomou conta antes que o pânico pudesse paralisá-lo completamente. Amon agarrou o símbolo sagrado que pendia em seu pescoço — o trevo de cinco folhas que havia carregado por tantos anos — e começou a invocar um santuário de proteção. As palavras sagradas formavam-se em sua mente, prontas para serem pronunciadas, mas sua boca não obedecia. Seu coração batia tão forte que ele podia sentir as pulsações na mão que segurava o símbolo, cada batida reverberando pelo braço, pelo peito, pela garganta. A concentração necessária para a magia escorria entre seus dedos como água.
Salvaguarda de constituição: falhou.
A garra apertou seu ombro. Ele sentiu as pontas penetrarem o tecido de sua túnica, depois a carne. Não profundamente — ainda não — mas o suficiente para que soubesse que eram reais, que podiam matá-lo.
"Afastem-se!" sua voz saiu rouca, desesperada. "Em nome da luz, afastem-se!"
Tentou expulsar os mortos-vivos, canalizando toda a energia sagrada que conseguia reunir. Mas seu corpo não cooperava. O veneno — porque agora ele sabia que era veneno — corria por suas veias, fazendo seu sangue ferver, sua visão pulsar, seu coração bater descompassado.
Salvaguarda de constituição: falhou.
A segunda garra aproximava-se do outro ombro. Amon pensou na água benta que carregava em sua bolsa. Seus dedos tatearam o cinto, procurando o frasco, mas suas mãos tremiam tanto que não conseguia encontrá-lo. Cada segundo que passava, as criaturas pareciam ficar maiores, suas garras mais afiadas, seus sorrisos mais largos.
Salvaguarda de constituição: falhou.
A garra tocou seu segundo ombro.
Algo dentro de Amon quebrou — não sua coragem, mas algo mais profundo, mais primitivo. O instinto de sobrevivência que existe antes da fé, antes do treinamento, antes de qualquer coisa que nos torna civilizados. Sua mão foi para a espada na cintura. Não era uma arma que usava frequentemente — clérigos raramente precisavam de lâminas quando tinham a luz divina — mas agora era tudo que tinha.
Salvaguarda de constituição: 12. Sucesso.
O metal cantou ao ser desembainhado. Amon ergueu a espada em um arco defensivo, pronto para cortar a primeira criatura que se aproximasse. A lâmina brilhou à luz das toc—
Havia uma mão segurando a lâmina.
Uma mão humana. Sem garras. Sem escamas. Apenas carne e osso, com dedos que tremiam levemente pelo esforço de segurar uma espada afiada.
Era a mão de Rowan.
O mundo piscou. As criaturas desapareceram como fumaça dispersada pelo vento. Amon estava de volta à câmara, cercado por seus companheiros, todos olhando para ele com expressões que misturavam preocupação e alarme. Simas estava encharcado, pingando água que cheirava distintamente a... água benta.
"Cadê os monstros?" Amon ofegou, ainda segurando a espada, ainda sentindo o peso das garras em seus ombros. "Cadê os corrompidos?"
"Você começou a ficar louco, cara," Rowan disse calmamente, ainda segurando a lâmina. Seus dedos deixavam marcas vermelhas onde o metal pressionava a pele, mas ele não soltou. "Começou a tacar água benta no Simas."
Mogli deu um passo à frente. "Eu vi. Quando você apertou o botão, saiu uma fumacinha. Foi direto no seu rosto."
Amon baixou a espada lentamente. Suas mãos ainda tremiam. Seu coração ainda batia rápido demais. Mas a câmara permanecia sólida ao seu redor, real, tangível. Ele olhou para Simas, para as manchas escuras na roupa do anão onde a água benta havia molhado.
"Eu... vi demônios. Cinco deles. Eram iguais às figuras nas estátuas."
Kaor aproximou-se, seus olhos azuis examinando Amon com preocupação. "Você está bem agora?"
Amon fechou os olhos, respirou fundo, tentou sentir seu próprio corpo. A queimação nos olhos havia diminuído para uma irritação leve. Seu coração começava a desacelerar. Mas havia algo mais — um calor residual correndo por suas veias, e uma sensação estranha na base do crânio, como se algo tivesse mexido nos fios que conectavam seus pensamentos.
Ele tinha treinamento em medicina. Não tanto quanto um curandeiro dedicado, mas o suficiente para reconhecer envenenamento quando sentia um. Fechou os olhos novamente, desta vez não por medo, mas por concentração. Deixou sua consciência percorrer seu próprio corpo, identificando os sintomas, traçando as causas.
Três toxinas. Ele podia distingui-las agora que o pior havia passado. Um alucinógeno potente — provavelmente extraído de algum fungo raro — que havia criado as visões dos demônios. Um veneno que aumentava a temperatura corporal, explicando por que seu coração havia disparado e por que ainda sentia calor mesmo na câmara fria. E algo mais, algo mais sinistro: um componente que atacava a mente diretamente, induzindo paranoia e loucura.
"Foi uma armadilha," ele disse, abrindo os olhos. "O botão. Quem quer que construiu isso misturou três venenos diferentes. Se eu não tivesse conseguido me controlar no final..." Ele olhou para Rowan, para a marca vermelha em sua mão onde havia segurado a espada. "Obrigado."
Rowan soltou a lâmina finalmente, flexionando os dedos. "Da próxima vez, talvez a gente examine os botões antes de apertar."
O grupo reuniu-se ao redor das estátuas com renovado cuidado. Amon guardou sua espada, ainda sentindo o peso residual do veneno em seu sistema, mas funcional. Kaor aproximou-se do painel da primeira estátua, passando suas mãos grandes e azuis por toda a superfície.
"Tem que ter algo mais aqui," murmurou, seus dedos traçando as linhas entalhadas na pedra, procurando por irregularidades, por mecanismos ocultos. Mas a pedra era lisa demais em alguns lugares, áspera demais em outros, e seus dedos não conseguiam distinguir o que era intencional do que era apenas desgaste do tempo.
Teste de percepção: falhou.
Rowan observava de alguns passos atrás, sua prancheta em mãos. Ele tinha um talento para notar detalhes — Sharp Eye, seus companheiros de caravana costumavam chamar, antes de ele se juntar a este grupo peculiar. Aproximou-se do colar da estátua que havia quase matado Amon, examinando-o com olhos treinados para captar o que outros perdiam.
Teste de percepção com vantagem: sucesso.
"Espera," ele disse, inclinando-se mais perto. "Esses não são só decoração."
Os outros se aproximaram. Rowan apontou para os botões laterais no colar.
"Olhem aqui. O botão do centro é óbvio — é para isso que querem que olhemos. Mas esses dois dos lados..." Seus dedos traçaram as bordas quase invisíveis. "São botões também. Só que muito melhor escondidos. E mais rígidos."
Kaor franziu a testa. "Então a gente tem que apertar os três?"
"Talvez. Ou talvez só os laterais." Rowan endireitou-se, olhando para o grupo. "Alguém quer fazer as honras?"
Houve um momento de silêncio. Todos olharam para Amon, que ainda limpava os últimos resíduos de água benta de sua túnica.
"Eu passo," o clérigo disse secamente.
Rowan suspirou. "Tudo bem. Mas se sair mais fumacinha, alguém me segura antes que eu faça algo estúpido."
Kaor deu um passo à frente. "Eu seguro." E antes que Rowan pudesse protestar, o orc marinho o envolveu em um abraço lateral, imobilizando parcialmente seus braços. Era uma posição estranha — Rowan podia mover as mãos, mas não muito mais que isso.
"Isso é realmente necessário?" Rowan perguntou.
"Você pediu."
Rowan suspirou novamente, depois posicionou seus polegares sobre os dois botões laterais. Eles eram mais rígidos que o central, como havia previsto. Precisou aplicar força real para fazê-los ceder.
Pressionou ambos simultaneamente.
Por um momento, nada aconteceu. Então veio o som — um clique mecânico profundo, vindo não das estátuas, mas das paredes ao redor. Algo grande estava se movendo dentro da estrutura da pirâmide. Engrenagens antigas rangiam, correntes de pedra deslizavam, contrapesos desciam.
Do lado esquerdo do grupo, parte da parede começou a descer, revelando uma escadaria que mergulhava ainda mais fundo na escuridão.
Kaor soltou Rowan, um sorriso largo em seu rosto azul. "Era só ter coragem."
Amon olhou para a escadaria, depois para o botão que havia quase o matado, depois de volta para a escadaria. "Ou sorte," ele murmurou. "Bastante sorte."
Mas Kaor já estava avançando, sua visão no escuro permitindo que visse onde os outros só enxergavam sombras. "Vamos. Não viemos até aqui para ficar parados."
A escadaria descia por muito mais tempo do que qualquer um esperava. Os degraus eram irregulares, alguns mais altos que outros, como se tivessem sido cortados por mãos diferentes ou em épocas diferentes. As paredes apertavam-se gradualmente, forçando o grupo a descer em fila única.
Kaor ia à frente, seus olhos adaptados à escuridão mapeando o caminho. Atrás dele vinham Rowan, Simas, Mogli e Amon, este último ainda carregando uma tocha, mesmo que a luz fizesse pouca diferença para ele depois do veneno.
Então chegaram ao corredor.
Era longo — muito longo — e pontuado por nichos esculpidos nas paredes de ambos os lados. Em cada nicho, uma estátua. Dez ao todo, cinco de cada lado, cada uma representando uma figura diferente, cada uma congelada em uma pose específica.
Kaor parou na primeira, examinando-a à luz fraca que vinha de trás. "Tem um sacerdote aqui," ele chamou. "Vestes cobrindo o rosto, mãos juntas. Tá segurando um incensário."
Aproximou-se mais. O incensário pendia de uma corrente que, surpreendentemente, não era fixa. Quando Kaor tocou-a levemente, ela balançou, as correntes de pedra movendo-se com uma fluidez que não deveria ser possível.
"Essa corrente se move," ele disse, maravilhado.
Seguiram em frente. A segunda estátua mostrava um monge, um terço de contas pendurado em seu pulso. As contas também eram móveis, girando quando Simas as tocou experimentalmente. Os punhos do monge estavam cerrados, como se estivesse prestes a desferir um golpe.
A terceira era um guerreiro com escudo. Seu elmo cobria completamente o rosto, e ele segurava o escudo de uma forma estranha — não centralizado, mas deslocado para um lado, como se estivesse em uma posição defensiva desajeitada.
"Esse aqui não sabe segurar um escudo," Simas comentou, sua experiência com equipamento de combate evidente. "Tá tudo torto."
A quarta estátua fez Kaor parar completamente. Era um arqueiro, ou talvez um caçador, com um arco em posição de disparo. Mas algo estava errado. O arqueiro não olhava para onde a flecha apontava. Em vez disso, sua cabeça estava inclinada para baixo, olhando para o próprio arco.
Kaor tocou a cabeça experimentalmente. Ela se moveu — não muito, mas o suficiente para mostrar que tinha mobilidade.
"Interessante," Rowan murmurou, fazendo anotações em sua prancheta.
Continuaram. A quinta estátua mostrava uma mulher com roupas simples, segurando um jarro de água na altura do quadril. O jarro também era móvel. A sexta era outro guerreiro, este com espada, mas novamente com o posicionamento errado — escudo na frente, espada atrás, nada alinhado.
A sétima estátua fez todos pararem. Era outra mulher, segurando uma lanterna antiga. A lanterna não tinha vidro protetor, apenas uma estrutura de metal com espaço para uma chama. Ao contrário de muitas outras peças móveis, esta lanterna estava fixa, fundida com a mão da estátua.
A oitava mostrava um mago com chapéu pontudo dobrado para trás. Ele segurava um cajado com uma esfera na ponta. A esfera girava quando tocada, e havia runas escritas verticalmente tanto no cajado quanto na esfera.
A nona era um anão, segurando uma picareta com uma mão. A picareta estava um pouco à frente e torta, como se o anão estivesse prestes a balançá-la, mas a posição era desajeitada. A picareta também era móvel.
A décima e última estátua mostrava um homem segurando um livro. A página superior do livro podia ser virada.
Simas sacou o mapa que haviam encontrado anteriormente — o diário dos exploradores que haviam entrado na pirâmide antes deles. Desenrolou-o cuidadosamente, procurando pela passagem que mencionava algo sobre estátuas.
"Aqui," ele disse, apontando. "'O caçador estendeu a mão. A chama se apagou. O sábio entendeu. Ela não deve iluminar o caminho. Então deve iluminar aquilo que não pode ser visto, disse o mago. O monge retirou a faixa dos olhos pela primeira vez.'"
Mogli franziu a testa. "O que isso significa?"
"É um enigma," Amon disse, aproximando-se para ler por cima do ombro de Simas. "Eles estão nos dizendo como resolver isso sem nos dizer diretamente."
Kaor olhou para a estátua do arqueiro — o caçador. "O caçador estendeu a mão. Talvez a gente tenha que mover a cabeça dele? Fazer ele olhar para frente?"
"Talvez," Rowan disse, mas sua voz carregava dúvida. "Mas e o resto? A chama se apagou, o sábio entendeu... Tem que ter uma ordem específica."
Kaor já estava se movendo em direção ao arqueiro. "Só um jeito de descobrir."
Kaor posicionou-se diante da estátua do arqueiro, suas mãos grandes envolvendo a cabeça de pedra. Respirou fundo, depois começou a empurrar, tentando endireitar a cabeça para que o caçador olhasse para frente, na direção correta de disparo.
A cabeça moveu-se facilmente no início, girando suavemente como se tivesse sido projetada para isso. Mas então ficou pesada — não gradualmente, mas de repente, como se algo tivesse enganchado. Kaor ajustou sua pegada, aplicando mais força.
Teste de destreza: 15.
A cabeça clicou na posição correta, o arqueiro agora olhando para onde sua flecha apontava. No mesmo instante, a mão que segurava a flecha subiu junto, o braço inteiro se movendo em um arco rápido. A flecha passou a centímetros do rosto de Kaor, tão perto que ele sentiu o deslocamento de ar. A ponta era afiada — muito afiada, não apenas decorativa.
Kaor recuou instintivamente, soltando a cabeça. Ela voltou à posição original com um clique suave, o arqueiro novamente olhando para o próprio arco.
"Merda," Kaor respirou, seu coração acelerado.
Nada mais aconteceu. Não houve som de mecanismos, não houve portas se abrindo, não houve indicação de sucesso. Apenas a estátua voltando ao estado original, como se estivesse dizendo: errado, tente novamente.
"Talvez não seja o caçador primeiro," Rowan sugeriu, sua voz cuidadosa. "O texto menciona a chama se apagando. Talvez seja a lanterna?"
Mogli já estava se movendo em direção à estátua da mulher com a lanterna. Ele tirou uma pimenta de sua bolsa — uma das muitas que carregava para suas magias druídicas — e a mascou rapidamente. Então, usando Druidcraft, cuspiu uma pequena chama na lanterna.
O fogo pegou. Por um breve momento, a lanterna brilhou com luz real, iluminando o corredor com um clarão alaranjado. Então a chama tremeu, diminuiu, e subitamente apagou.
Um segundo depois, explodiu.
A explosão não foi de fogo, mas de luz — luz pura e intensa, tão brilhante que parecia sólida. Kaor, Mogli e Simas estavam perto o suficiente para serem pegos pela explosão.
Salvaguarda de constituição: Kaor passou; Mogli e Simas falharam.
Todos tomaram 5 de dano, o calor da explosão queimando sua pele exposta. Mas para Mogli e Simas, foi pior. A luz entrou por seus olhos como facas, queimando as retinas. Suas visões ficaram completamente brancas, depois vermelhas, depois brancas novamente. Quando a luz finalmente diminuiu, eles não conseguiam ver nada além de manchas brilhantes flutuando em um campo de escuridão.
Estavam cegos.
"Mogli?" Amon chamou, correndo para o garoto. "Você consegue me ver?"
"Tá tudo branco," Mogli respondeu, sua voz tremendo. "Não consigo ver nada. Tá ardendo."
Simas xingou em anão, uma longa sequência de palavras que provavelmente eram muito mais coloridas em seu idioma nativo. Ele apertava os olhos com as mãos, como se isso pudesse fazer a dor parar.
Kaor olhou ao redor, sua própria visão intacta mas manchada com pontos brilhantes residuais. "Isso foi um strike," ele disse lentamente. "Como aquelas armadilhas que tem três chances antes de algo pior acontecer."
"Ótimo," Simas resmungou, ainda cego. "Então temos mais duas tentativas antes de todos morrermos."
Rowan consultou o mapa novamente, seus olhos percorrendo o texto rapidamente. "Tem que ter uma ordem. O texto menciona o caçador, depois a chama, depois o sábio, depois o mago, depois o monge. Talvez seja essa a ordem?"
"Mas já tentamos o caçador e não funcionou," Kaor apontou.
"Talvez porque tentamos ele primeiro. Talvez tenha que fazer outra coisa antes."
Amon ajudou Mogli a sentar-se contra a parede, depois foi até Simas. "A cegueira vai passar," ele disse, usando seu treinamento médico para examinar os olhos do anão. "É temporária. Mas vai demorar."
"Quanto tempo?" Simas perguntou.
"Não sei. Depende de quanto tempo a gente fica aqui."
Kaor olhou para a estátua do anão com a picareta. Algo nele — talvez teimosia, talvez intuição — o puxava em direção a ela. "Vou tentar mais uma," ele disse.
"Kaor, não—" Amon começou, mas o orc marinho já estava se movendo.
Kaor agarrou a picareta, tentando ajustá-la para a posição correta. A picareta estava leve no início, fácil de mover. Então ficou pesada. Ele sentiu algo enganchar, como tinha acontecido com o arqueiro. Aplicou mais força, tentando forçá-la na posição.
A picareta girou rapidamente na outra direção.
Acertou a perna de Kaor com força brutal, a ponta de pedra penetrando a carne de sua coxa. Ele gritou, soltando a picareta, que voltou à posição original como se nada tivesse acontecido.
Dano: 5 de dano. Deslocamento reduzido.
Kaor caiu de joelhos, apertando a perna. Sangue escorria entre seus dedos. Quando tentou se levantar, descobriu que sua perna mal conseguia suportar peso. Estava mancando.
"Strike dois," Rowan disse calmamente, mas sua voz estava tensa.
Então todos viram. Os olhos de todas as estátuas — todas as dez — começaram a brilhar em verde. Uma luz fraca a princípio, mas crescendo gradualmente, como se algo estivesse acordando dentro da pedra.
"Isso não é bom," Mogli disse, ainda cego, mas ouvindo a mudança no tom das vozes ao redor.
Amon olhou para as estátuas, para os olhos verdes brilhantes, e sentiu um arrepio percorrer sua espinha. "Temos que resolver isso. Agora."
Mas antes que pudessem formular um novo plano, Kaor, frustrado e ferido, voltou para a lanterna. "Talvez se a gente usar luz mágica em vez de fogo..."
"Kaor, espera—"
Mas Amon já estava conjurando. A magia Luz formou-se em sua mão, depois fluiu para a lanterna. A lanterna recebeu a magia, brilhou intensamente, depois a rejeitou em uma explosão que varreu o corredor inteiro.
Salvaguarda de constituição: Amon falhou.
Amon tomou 4 de dano e ficou cego, a mesma luz branca consumindo sua visão. Ele caiu de joelhos, o mundo reduzido a manchas brilhantes e dor ardente.
"Strike três," Rowan disse, e desta vez havia medo real em sua voz.
Os olhos das estátuas brilharam ainda mais intensamente em verde. Então, de algum lugar nas paredes, começou a sair fumaça. Densa, esverdeada, ela preencheu o corredor rapidamente, reduzindo a visibilidade a alguns metros. O ar ficou pesado, difícil de respirar.
"A partir de agora," o mestre disse, sua voz ecoando estranhamente na fumaça, "todas as interações com as estátuas têm -1 de penalidade."
Três membros do grupo estavam cegos. Um estava mancando. E a fumaça continuava a se acumular.
Rowan olhou para o mapa novamente, suas mãos tremendo levemente enquanto segurava a prancheta. A fumaça tornava difícil ler, mas ele forçou seus olhos a focarem nas palavras. Tinha que haver algo que estavam perdendo, algum detalhe crucial.
"'O sábio entendeu,'" ele leu em voz alta. "'Ela não deve iluminar o caminho. Então deve iluminar aquilo que não pode ser visto.'"
Kaor, ainda mancando, aproximou-se dele. "O sábio. A estátua com o livro?"
"Tem que ser. E o texto diz que ele 'passou os dedos sobre as últimas palavras.' Talvez a gente tenha que virar a página?"
Kaor olhou para Mogli, que ainda estava sentado contra a parede, cego. "Mogli, consegue andar?"
"Se alguém me guiar," o garoto respondeu.
Kaor segurou a mão de Mogli e o levou até a estátua do homem com o livro. A fumaça tornava tudo mais difícil, cada passo uma negociação com a dor em sua perna ferida. Quando chegaram à estátua, Kaor guiou a mão de Mogli até a página do livro.
"Sente isso? É uma página. Tenta virar."
Mogli tateou a pedra, seus dedos encontrando a borda da página. Ela era fina — surpreendentemente fina para algo feito de pedra. Aplicou pressão suave, e a página começou a se mover, virando como se fosse um livro real.
A página virou completamente.
Nada explodiu. Nenhuma flecha foi disparada. Nenhuma picareta girou. A página simplesmente ficou virada, revelando uma nova superfície em branco do outro lado.
"Funcionou," Kaor respirou. "Não aconteceu nada ruim."
"Um acerto," Rowan disse, marcando algo em sua prancheta. "Precisamos de mais quatro."
Ele aproximou-se da estátua do mago, examinando o cajado com a esfera na ponta. As runas na esfera eram escritas verticalmente, assim como as runas no cajado. Mas estavam desalinhadas — as runas da esfera não correspondiam às runas do cajado.
Rowan tocou a esfera cuidadosamente, sentindo-a girar sob seus dedos. Começou a rodá-la lentamente, alinhando as runas. A esfera girava suavemente, sem resistência, até que as runas se encaixaram perfeitamente com as do cajado.
Clique.
A esfera travou na posição. Novamente, nada de ruim aconteceu.
"Dois," Kaor disse, um sorriso começando a se formar em seu rosto apesar da dor.
Ele mancou até a estátua do monge, examinando o colar de contas em seu pulso. As contas eram de duas cores — brancas de um lado, pretas do outro. Atualmente, estavam todas viradas para o lado branco.
Kaor começou a girá-las, uma por uma, até que todas mostrassem o lado preto. A última conta clicou na posição.
"Três," Rowan contou.
Kaor voltou para o arqueiro, o caçador que havia quase o acertado antes. Desta vez, ele estava mais preparado. Segurou a cabeça firmemente, endireitou-a para que o caçador olhasse para frente. O braço começou a subir novamente, mas Kaor estava pronto. Desviou quando a flecha passou.
A cabeça travou na posição correta. Desta vez, não voltou.
"Quatro," Kaor disse, seu coração acelerando. "Só falta a lanterna."
Amon, ainda cego, foi guiado até a estátua da mulher com a lanterna. Suas mãos tatearam até encontrar a estrutura de metal. Ele podia sentir o calor residual das explosões anteriores.
"Luz," ele murmurou, conjurando a magia novamente. "Apenas luz. Nada de fogo."
A magia fluiu de suas mãos para a lanterna. A lanterna acendeu, brilhando com uma luz suave e constante. Por um momento, todos prenderam a respiração, esperando a explosão.
Mas não veio.
A luz permaneceu acesa, brilhando constantemente, iluminando o corredor através da fumaça. E conforme a luz se espalhava, eles ouviram — um som profundo e mecânico, vindo do lado esquerdo. Uma parede estava deslizando, descendo, revelando uma nova passagem.
A fumaça começou a dissipar. E conforme se afastavam do corredor das estátuas, algo notável aconteceu: aqueles que estavam cegos — Amon, Mogli, Simas — começaram a recuperar a visão. Primeiro como manchas, depois como formas borradas, finalmente como imagens claras. A cegueira estava passando.
O deslocamento reduzido de Kaor também melhorou. Sua perna ainda doía, mas ele podia andar normalmente novamente.
"Resolvemos," Mogli disse, maravilhado, sua visão finalmente clara. "Realmente resolvemos."
Rowan olhou para a passagem recém-aberta, depois para seu mapa. "Isso foi apenas o começo," ele disse. "Ainda temos que descobrir o que há lá embaixo."
Mas por agora, estavam vivos. Feridos, exaustos, mas vivos. E a passagem os aguardava.
A nova escadaria era mais longa que a anterior. Descia em espiral, as paredes gradualmente mudando de pedra trabalhada para rocha natural. O ar ficava mais úmido a cada passo, e um som distante começou a se fazer ouvir — o barulho de água corrente.
"Ouvem isso?" Simas perguntou, sua audição aguçada captando o som antes dos outros.
"Água," Kaor confirmou. "Muita água."
O barulho cresceu conforme desciam, até que finalmente chegaram ao fim das escadas. Diante deles se abria uma grande câmara, e o que viram fez todos pararem.
Um rio corria através da câmara, da esquerda para a direita, suas águas escuras e turbulentas. Mas não era água comum — tinha uma coloração estranha, quase metálica, e o cheiro que emanava dela era distintamente ferroso, como sangue velho.
Do lado esquerdo havia uma grelha de metal vedando a entrada do rio, impedindo que qualquer coisa grande entrasse. Do lado direito, o rio corria solto por um túnel, desaparecendo na escuridão como uma cachoeira horizontal.
Entre o platô onde estavam e o outro lado do rio havia aproximadamente 4,5 metros de distância. Do outro lado, seis antessalas ou nichos estavam escavados na parede. Acima do marco de cada antessala, ganchos de pedra projetavam-se da rocha.
Um metro e meio separava o platô do nível da água. Não havia ponte, não havia pedras para pular, não havia caminho óbvio.
"Como atravessamos?" Mogli perguntou.
Simas já estava pensando. Ele sacou sua pregadeira — uma ferramenta que havia modificado pessoalmente, capaz de disparar vergalhões com força considerável. Com um gesto rápido, conjurou uma corda usando sua magia de conjuração. A corda materializou-se no ar, sólida e forte.
"Vou fazer uma tirolesa," ele disse, amarrando uma ponta da corda em um vergalhão.
Mirou cuidadosamente em um dos pilares do outro lado, respirou fundo, e disparou.
Ataque à distância: acerto.
O vergalhão voou através da câmara e cravou-se na pedra com um thunk satisfatório. Simas puxou a corda para testar. Estava firme. Cravou outro vergalhão no chão do lado onde estavam e amarrou a corda, criando uma linha reta através do rio.
"Pronto," ele disse, orgulhoso. "Só precisamos atravessar."
Kaor foi o primeiro a tentar. Agarrou a corda com ambas as mãos e começou a subir, movendo-se de costas para a água, seus braços fortes puxando-o ao longo da corda.
Teste de atletismo: 3. Falhou.
Ele havia se movido apenas alguns metros quando o cheiro atingiu-o em cheio. O odor ferroso do rio entrou por suas narinas como uma substância física, tão forte que fez sua cabeça girar. Por um momento, tudo ficou nebuloso. Seus dedos relaxaram na corda.
Caiu.
A água estava fria — tão fria que tirou o ar de seus pulmões. E a correnteza era forte, muito mais forte do que parecia da margem. Imediatamente começou a arrastá-lo em direção ao túnel à direita, onde o rio desaparecia na escuridão.
"Kaor!" Rowan gritou, jogando uma corda.
Amon já estava se movendo. Ele tocou o anel de natação que usava — um presente de muito tempo atrás — e pulou na água atrás de Kaor. O anel o manteve flutuante, permitindo que nadasse contra a correnteza com mais facilidade do que seria normalmente possível.
Agarrou Kaor pelo braço. Rowan e Simas puxaram a corda do outro lado, e juntos conseguiram trazer ambos de volta à margem. Kaor saiu tossindo, cuspindo água ferrosa.
"Essa água," ele ofegou, "tem algo errado com ela."
"Você acha?" Simas disse secamente.
Kaor respirou fundo, secou o rosto, e olhou para a corda novamente. "Vou tentar de novo."
"Kaor—"
"Vou. Tentar. De novo."
Teste de atletismo: 4. Falhou novamente.
Desta vez ele chegou um pouco mais longe antes do cheiro o derrubar. Caiu na água pela segunda vez. Novamente foi resgatado, tossindo e ensopado.
Enquanto Kaor se recuperava, uma figura que havia permanecido silenciosa até agora deu um passo à frente. Cassie — a mulher que os havia contratado para esta expedição, que havia permanecido em segundo plano enquanto eles resolviam os enigmas — sacou um chicote de sua cintura.
Com um movimento fluido, ela enroscou o chicote em um dos ganchos do outro lado, testou a firmeza, e então simplesmente se balançou através do rio como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Teste de acrobacia: sucesso.
Ela pousou suavemente do outro lado, enrolou o chicote de volta, e começou a explorar as antessalas como se nada tivesse acontecido.
"Aqui tem uma estátua de um guerreiro segurando uma espada," ela chamou da primeira câmara. "Tenho certeza que essa espada não é normal."
Moveu-se para a sexta câmara. "Tem um monge cujo cordão de contas, mesmo sendo de pano, resistiu muito tempo."
Depois a central. "Parece ter um sacerdote segurando um cajado."
E finalmente a quarta. "Nesse aqui eu tenho certeza que o que esse cara tá segurando é um grimório."
Do outro lado do rio, o grupo observava com uma mistura de admiração e irritação.
"Ela poderia ter feito isso antes," Mogli murmurou.
Rowan decidiu tentar uma abordagem diferente. Em vez de pendurar-se na corda, ele tentaria se equilibrar em cima dela, como um equilibrista.
Teste de acrobacia: 20. Sucesso crítico.
Ele atravessou com os olhos fechados, seus pés encontrando a corda como se ela fosse sólida, seus braços estendidos para equilíbrio. Quando chegou do outro lado, abriu os olhos e sorriu.
"É só ter técnica," ele disse.
Simas não ia deixar isso passar. Ele subiu na corda e tentou o mesmo.
Teste de acrobacia: 20. Sucesso crítico.
Atravessou perfeitamente, depois virou-se para Kaor. "Aprende como é que se faz, grandão."
Kaor, ainda ensopado, sentou-se em posição de lótus por um momento, meditando, deixando a frustração escorrer. Quando abriu os olhos novamente, estava calmo. Centrado.
Teste de atletismo: sucesso.
Desta vez, atravessou. Não foi elegante, não foi bonito, mas chegou do outro lado.
Mogli tentou em seguida.
Teste de acrobacia: falhou no primeiro, sucesso no segundo.
Ele escorregou na primeira tentativa, mas conseguiu se segurar na corda. Na segunda tentativa, atravessou com sucesso.
Amon foi o último. Usando o anel de natação como segurança, atravessou sem incidentes.
Agora todos estavam do outro lado, e as antessalas os aguardavam.
Rowan aproximou-se da quarta câmara, onde Cassie havia mencionado o grimório. Tentou passar pela abertura estreita entre as câmaras.
Teste de acrobacia: sucesso.
Conseguiu. A câmara era pequena, mal cabendo duas pessoas. No centro, uma estátua de um mago segurava um livro grosso — não de pedra, mas de couro e pergaminho reais, preservados de alguma forma através dos séculos.
Rowan pegou o grimório cuidadosamente, folheando as páginas. Estava escrito em uma língua arcana que ele não reconhecia completamente, mas as ilustrações eram claras — feitiços, rituais, invocações.
Enquanto isso, Cassie havia se movido para a quinta câmara. Ela estava ajoelhada no chão, suas mãos trabalhando em algo que os outros não conseguiam ver claramente.
Kaor explorou a terceira câmara, onde a estátua do sacerdote segurava um cajado. O cajado era de madeira escura, quase preta, com runas entalhadas ao longo de seu comprimento. Quando Kaor o pegou, sentiu um leve formigamento percorrer seu braço — magia residual, ainda ativa depois de todo esse tempo.
Simas foi direto para a primeira câmara. A espada que o guerreiro segurava era claramente mágica — a lâmina tinha um brilho sutil, e o equilíbrio era perfeito demais para ser comum. Ele a pegou, testando o peso. Leve, responsiva, mortal.
Na sexta câmara, o monge segurava um colar de contas feito de pano e madeira. Simas pegou-o também, examinando as contas. Cada uma tinha um símbolo diferente entalhado.
Kaor começou a notar moedas de ouro espalhadas pelo chão das câmaras. Não muitas, mas o suficiente para valer a pena coletar. Começou a pegá-las, enchendo seus bolsos.
Então Cassie se levantou.
Ela estava na borda da câmara cinco, segurando algo em suas mãos. Era um cristal — verde, do tamanho de sua mão, brilhando com luz própria.
"Aqui, meninos," ela disse, sua voz ecoando pela câmara, "foi onde eu encontrei o que eu vim buscar."
Havia algo em seu tom que fez todos pararem.
"Eu sei que tá muito divertido pular na água e passar, mas como nós já encontramos o tesouro, deixo aqui o meu adeus e o nosso contrato se encerra."
Rowan deu um passo à frente. "E o pagamento?"
Cassie sorriu — não um sorriso amigável, mas o sorriso de alguém que acabou de ganhar um jogo. "O pagamento de vocês está aí." Ela gesticulou vagamente para as câmaras ao redor. "Espadas mágicas, grimórios, cajados. Divirtam-se."
Então ela tirou algo de sua bolsa. Era uma vassoura — uma vassoura comum, exceto pelo fato de que não deveria caber em uma bolsa daquele tamanho. Ela a colocou entre suas pernas.
E começou a levitar.
"Talvez vocês ainda encontrem uma armadilha ou duas," ela disse, já subindo no ar.
Foi quando ouviram.
CLIQUE.
O som veio de baixo, profundo e mecânico. A saída por onde a água estava escoando — o túnel à direita — começou a se fechar. Uma porta de pedra massiva descia lentamente, vedando a passagem.
E com a saída se fechando, o rio não tinha para onde ir. A água começaria a subir.
Cassie saiu voando em direção ao túnel, sua vassoura cortando o ar. Ela passou pela abertura que diminuía rapidamente, escapando para a escuridão além antes que a porta se fechasse completamente.
O grupo ficou sozinho. E tinham seis turnos para encontrar uma saída antes que a câmara se enchesse completamente de água.
"MERDA!" Simas gritou, já se movendo.
Não havia tempo para pânico. Não havia tempo para raiva. Apenas ação.
Turno 1.
Mogli tentou atravessar para outra câmara, procurando por alguma saída oculta.
Teste de acrobacia: sucesso.
Conseguiu se mover, mas não encontrou nada.
Rowan correu para a câmara 5 — a câmara de onde Cassie havia tirado o cristal. Talvez houvesse algo mais lá, algum mecanismo, alguma pista. Mas a câmara estava vazia. Apenas paredes de pedra e o espaço onde o cristal havia estado.
Simas voltou para a câmara 1, olhando para a espada que havia deixado para trás. Decidiu não pegá-la ainda — precisava de mobilidade.
Amon subiu correndo as escadas, de volta para a passagem por onde haviam entrado. Talvez houvesse outra saída, talvez a porta ainda estivesse aberta. Mas quando chegou ao topo, encontrou apenas pedra sólida. A passagem havia se fechado.
"Tá tudo fechado!" ele gritou de volta. "Tem que achar a saída!"
Kaor moveu-se para a câmara 3, pegando o cajado do sacerdote. Se iam morrer, pelo menos morreriam com tesouros.
Turno 2.
A água já começava a subir. Não muito — talvez alguns centímetros — mas o suficiente para ser perceptível.
Mogli tentou atravessar para a câmara 6.
Teste de acrobacia: 2. Falhou.
Seu pé escorregou na pedra molhada. Ele caiu na água e imediatamente foi pego pela correnteza. A água o arrastou em direção à porta que estava se fechando, batendo-o contra as paredes.
Rowan moveu-se para a câmara 6, olhando desesperadamente por qualquer coisa útil.
Simas voltou para as câmaras principais.
Teste de acrobacia: 20. Sucesso crítico.
Ele atravessou como se estivesse dançando, depois pegou a espada da câmara 1. Se ia enfrentar o que quer que houvesse além, queria estar armado.
Amon desceu correndo de volta, gritando: "Tá tudo fechado! Tem que achar a saída!"
Kaor usou duas ações para voltar, suas mãos ainda segurando o cajado.
Turno 3.
A água estava na altura dos tornozelos agora. E continuava subindo.
Amon tomou uma decisão. Tocou seu anel de natação, respirou fundo, e mergulhou. A correnteza o pegou imediatamente, arrastando-o em direção à porta de pedra que ainda estava descendo — agora na metade do caminho.
Ele nadou com a correnteza, deixando-a ajudá-lo. Aproximou-se da porta rapidamente. Quando chegou perto, agarrou-se à borda para não ser levado. A abertura tinha talvez um metro de altura agora.
Forçou-se a olhar através dela. Do outro lado, viu um túnel descendo em ângulo. Começava como construção — paredes de pedra trabalhada — mas depois de alguns metros virava natural, apenas rocha e água.
"TEM UM TÚNEL AQUI!" ele gritou, sua voz ecoando pela câmara. "GENTE, DESCENDO!"
Kaor, ainda nas câmaras, gastou seus movimentos pegando mais moedas de ouro do chão. Se iam escapar, iam escapar ricos.
Mogli, ainda sendo levado pela correnteza, tentou nadar contra ela.
Teste de atletismo: falhou.
A água era forte demais. Ele foi levado mais para longe, batendo contra as paredes, lutando para manter a cabeça acima da água.
Rowan pegou algumas moedas rapidamente e começou a se mover em direção à água.
Simas voltou para a câmara 4 e pegou o grimório. Conhecimento era poder, mesmo em uma situação como esta.
Turno 4.
A água estava na altura dos joelhos. A porta tinha talvez 60 centímetros de abertura.
Amon passou pela abertura, seu corpo esguio conseguindo se espremer através do espaço que diminuía. Do outro lado, a água já começava a acumular, criando um pequeno lago antes de descer pelo túnel.
Kaor pulou na água finalmente, deixando-se ser levado pela correnteza em direção à saída.
Mogli, desesperado, agarrou-se à corda que Amon estava segurando. Deixou-se ser levado pela correnteza, confiando que a corda o guiaria para a saída.
Rowan correu, calculando a distância, a velocidade da água, o tamanho da abertura. Então pulou, tentando um mortal para passar pela abertura com estilo.
Teste de acrobacia: 9.
Ele não conseguiu. Caiu de barriga na água com um splash doloroso. A correnteza o pegou e o arrastou em direção à porta.
Simas tentou passar entre câmaras uma última vez.
Teste de acrobacia: sucesso.
Conseguiu, então pulou na água também.
Turno 5.
A água estava na altura da cintura. A porta tinha talvez 30 centímetros de abertura.
Amon já estava no túnel, segurando a posição, gritando encorajamento para os outros.
Kaor foi levado pela correnteza, seu corpo grande sendo empurrado pela força da água. Ele se encolheu, passando pela abertura com centímetros de sobra.
Mogli chegou junto com Amon, sendo puxado pela corda. Passou pela abertura, tosindo água.
Rowan, recuperado de sua barriga-flop, foi levado pela correnteza. Ele se virou de lado, tornando-se o mais fino possível, e passou pela abertura.
Simas era o último. A porta estava quase completamente fechada — talvez 15 centímetros de altura.
Turno 6.
A água estava no peito. A porta tinha talvez 10 centímetros.
Simas nadou com tudo que tinha, a correnteza o empurrando. Quando chegou à porta, encolheu a barriga, virou-se de lado, e se forçou através da abertura.
Sua barriga raspou na pedra. Seu equipamento bateu contra a porta. Por um momento terrível, ele pensou que ficaria preso.
Então passou. Lambendo, mas passou.
Atrás dele, sentiu o fluxo de água começar a diminuir. A porta havia se fechado completamente.
Mas eles não tinham tempo para comemorar. A água os pegou novamente, arrastando-os pelo túnel descendente. Era como um tobogã de pedra, molhado e traiçoeiro. Eles batiam nas paredes, se arranhavam na rocha, desciam metros e metros em uma espiral descontrolada.
Então o túnel terminou.
Despencaram por uma pequena queda d'água, caindo em uma nova câmara.
A queda não foi alta — talvez três metros — mas foi o suficiente para tirar o ar de seus pulmões quando atingiram a água abaixo. Um por um, emergiram, tossindo, ofegando, mas vivos.
Amon foi o primeiro a se recuperar. Ele se arrastou para a margem, deitou-se de costas por um momento, apenas respirando. Então se forçou a sentar e olhar ao redor.
A câmara era grande. Natural, não construída — as paredes eram de rocha irregular, o teto alto e irregular. Luz entrava de algum lugar acima, fraca mas suficiente para ver.
E havia criaturas.
Dezenas delas. Pequenas — menores do que o normal, talvez do tamanho de gatos grandes. Seus corpos eram de uma cor marrom-avermelhada, como ferro oxidado. Tinham antenas que se moviam constantemente, farejando o ar. E suas bocas... suas bocas eram cheias de dentes pequenos e afiados, projetados para rasgar metal.
Monstros da Ferrugem. Filhotes.
Eles cobriam o chão da câmara, dezenas deles, talvez centenas. E no centro, claramente maior que os outros, estava a fêmea. A rainha do ninho. Ela tinha talvez um metro de comprimento, seu corpo coberto de placas de ferrugem endurecida. Suas antenas eram mais longas, mais sensíveis. E seus olhos — pequenos e negros como contas — fixaram-se no grupo assim que caíram na água.
Kaor emergiu em seguida, depois Mogli, depois Rowan, depois Simas. Um por um, eles se arrastaram para a margem, percebendo lentamente onde haviam caído.
"Ah, merda," Simas disse, sua mão indo automaticamente para a espada que havia pegado.
Os monstros começaram a se mover. Não atacando ainda, mas se posicionando, formando um semicírculo ao redor do grupo. Os filhotes chiavam baixinho, um som metálico e desagradável. A rainha permanecia no centro, observando, esperando.
Ao longe, através da massa de criaturas, uma linha reta de claridade era visível — luz natural, vindo de uma fenda na rocha. Uma possível saída.
Mas entre eles e a saída havia um ninho inteiro de Monstros da Ferrugem.
Mogli segurou seus bonequinhos de concha, sentindo a magia druídica pulsar em suas mãos. Amon agarrou seu símbolo sagrado, sussurrando uma prece. Kaor levantou o cajado que havia pegado, testando seu peso. Rowan sacou sua prancheta — porque mesmo agora, mesmo aqui, ele precisava documentar. Simas empunhou a espada mágica, sua lâmina brilhando fracamente na luz difusa.
A rainha dos Monstros da Ferrugem deu um passo à frente.
Os filhotes chiaram mais alto.
E a sessão terminou ali, com o grupo molhado, exausto, cercado, mas ainda vivo. Ainda lutando. Ainda avançando.
Porque era isso que aventureiros faziam. Não importava quantas armadilhas encontrassem, quantas traições sofressem, quantos monstros os esperassem.
Eles continuavam.
Sempre continuavam.
Sessão 6
A Irmandade da Luz
Sessão 6 — versão narrativa
A água ferrosa grudava na pele como resina podre. O cheiro metálico penetrava as narinas de todos, persistente, nauseante. Amon sentia o líquido viscoso subir até as canelas, mas para Simas Redwood — baixo como todo anão deveria ser — a substância alcançava o umbigo, encharcando o avental de couro que protegia sua cota de anéis. O tecido da roupa parecia apodrecer em tempo real, dissolvendo-se lentamente sob o efeito corrosivo daquela imundície.
Três metros. Haviam caído três metros de cara naquele ninho, e agora os monstros da ferrugem se agitavam à frente, pequenos corpos metálicos tilintando contra as paredes da caverna. Eram filhotes, a maioria — criaturas do tamanho de gatos, com mandíbulas que rangiam famintas. Mas lá atrás, próximo aos ovos que brilhavam com um fulgor alaranjado doentio, a mãe observava. Grande. Muito grande.
"Eu só vejo uma opção", disse alguém, a voz tensa.
"Acho que sim, né, cara?" concordou outro.
Kaor — o orc marinho azul, com suas faixas laranja e cicatrizes que contavam histórias que ele raramente compartilhava — avaliou a situação com olhos experientes. Corajoso, sim. Mas não estúpido. "Eu voto em correr, mano."
A concordância foi imediata. Havia uma saída clara: um túnel ao fundo que emitia luz natural, provavelmente conectado à superfície. O ambiente era iluminado por fendas no teto cobertas de grama, raios de sol perfurando a escuridão em colunas douradas que contrastavam grotescamente com a água pútrida.
Rowan — humano bem-vestido, cabelo castanho bronzeado pelo sol, prancheta sempre à mão — foi o primeiro a se mover. Ele disparou entre os monstros, desviando dos pequenos corpos metálicos que tentavam alcançá-lo, saltando sobre veios de ouro que serpenteavam pelo chão da caverna como veias expostas. Os filhotes investiam, mas ele era rápido, ágil, preciso. Atravessou sem um arranhão.
Simas entregou sua espada e grimório a Mogli e Kaor — não havia como correr carregando tudo aquilo — e partiu em disparada. Suas pernas curtas bombeavam com força surpreendente, os braços largos impulsionando-o para frente. Conseguiu desviar dos dois primeiros ataques, mas no último momento uma das criaturas o alcançou, mandíbulas cerrando-se em sua panturrilha. Dor aguda, metálica. Cinco pontos de dano que ele sentiu até os ossos.
Mogli — o menino druida criado por leões marinhos, com seus bonequinhos de concha tilintando no cinto — dançou entre os monstros. Literalmente. Piruetas quando um se aproximava pela esquerda, salto mortal quando outro investia pela direita. Ele mal parecia tocar o chão, movendo-se com a graça selvagem de quem aprendera a sobreviver observando predadores marinhos. Passou ileso, por pouco.
Kaor foi o último. Saiu correndo, mas sua abordagem era diferente — em certos momentos escalava quase de quatro como um felino, agarrando-se aos estalagmites para impulsionar-se para frente, usando a força bruta para compensar a falta de agilidade. Duas criaturas o alcançaram, rasgando a túnica laranja, deixando novos talhos para se juntarem às cicatrizes antigas. Sete pontos de dor que ele registrou com um grunhido baixo, gutural.
Os filhotes foram ficando para trás. A luz do túnel se aproximava, cada vez mais brilhante, mais limpa. E então estavam fora, respirando ar puro, deixando o ninho infernal para trás.
Saíram da caverna ofegantes, cobertos de água ferrosa que secava em crostas marrons na pele. A pirâmide no centro da ilha servia de marco geográfico — dali conseguiam se situar. A decisão foi unânime: seguir pela orla da praia até o barco.
"É melhor ir pro barco mesmo e ir beirando pra tentar ver se o barco tá lá ainda, né?" sugeriu Rowan, já mentalizando rotas de fuga.
"Se a gente tiver que fugir, a gente foge pra água e fica uns tempinho ali", acrescentou Mogli, lembrando-se de como os monstros haviam recuado diante do mar. Tinham medo da água. Era uma vantagem.
A caminhada levou horas. Contornaram a ilha por fora, seguindo a linha onde a areia encontrava a vegetação rasteira. Durante o percurso, encontraram um ou outro monstro da ferrugem solitário — criaturas que rapidamente aniquilaram, já compreendendo melhor como lutar contra elas. O sol começava a descer quando avistaram o cais.
O barco estava lá. Exatamente na mesma posição que o haviam deixado.
Mas Cassandra não estava.
"Cadê a pilantra da elfa?" perguntou alguém, voz carregada de suspeita.
"Parece que a Cassandra foi embora na vassoura", concluiu Kaor, observando o convés vazio.
Enquanto discutiam as implicações, Mogli se afastou para a vegetação próxima. Seus dedos — ágeis, treinados por druidas — começaram a colher ervas. Folha de alho, reconheceu imediatamente. Boldo, ali. Aloe vera crescendo entre as pedras. Não eram as melhores ervas medicinais, mas funcionariam. Preparou um ungüento rudimentar, esmagando as folhas entre as palmas, misturando os sucos até obter uma pasta verde-amarelada.
"Eu não gosto de boldo", comentou Kaor, fazendo uma careta. "Minha mãe fazia tomar quando era criança." Pausa. "Ah não, o Kaor não tem mãe né, eu esqueci mano."
O comentário pairou no ar por um momento — metade piada, metade verdade dolorosa — antes de mergulharem de volta ao mar para nadar até o barco.
As suspeitas se confirmaram: Cassandra realmente não estava ali. Mas o barco permanecia intacto. Nem o macaco fora levado — a criatura os cumprimentou com guinchos irritados, claramente com fome.
Fizeram um descanso longo, estabelecendo turnos de vigia. Kaor assumiu o primeiro, sentado na proa com os olhos voltados para a ilha escura. Depois Rowan, que passou o tempo fazendo anotações na prancheta. Simas ficou acordado durante a madrugada, e Mogli fechou o ciclo, observando o amanhecer tingir o céu de laranja e rosa.
Os sons noturnos da ilha foram sua trilha sonora: grilos cantando em coros complexos, insetos zunindo, o ocasional chapinhar de algo grande na água. Mas nada os atacou. Nada se aproximou.
Ao amanhecer, estavam descansados. Recuperados. Vivos.
Kaor preparou a refeição matinal com a seriedade de um ritual. "Eu sou aquele que serve os meus marujos", explicou, pegando batatas dos suprimentos e preparando comida no braseiro que — descobriram com alguma surpresa — o barco possuía. Ele cozinhou com eficiência, temperando com sal marinho e ervas que Mogli forneceu.
Fizeram um inventário dos mantimentos. Rolaram um dado para avaliar quanto restava: dois dias de comida. Não era o suficiente.
Mogli pegou uma linha improvisada e foi pescar. Ficou na popa, observando a água com a paciência de quem crescera entre leões marinhos, aprendendo a ler as correntes, a identificar onde os peixes se escondiam. Quando puxou a linha, havia um atum considerável na ponta — grande o suficiente para adicionar mais um dia aos suprimentos. Três dias agora. Melhor.
Abriram o mapa sobre o convés, as bordas do pergaminho ondulando com a brisa marinha. A Ilha Maravilha ficava a sessenta e cinco milhas náuticas — aproximadamente três dias de viagem, se mantivessem velocidade constante de vinte e quatro milhas por dia.
Recapitularam o que sabiam sobre as ilhas próximas, cada um contribuindo com fragmentos de conhecimento:
A Ilha Esmeralda — terra natal de Simas — era uma ilha de mineradores, paradoxalmente pobre apesar das esmeraldas que brotavam de suas entranhas. Constantemente saqueada por piratas, nunca conseguira acumular riqueza.
A Ilha Tempestade permanecia inacessível, cercada por um ciclone gigantesco que destruía qualquer embarcação que tentasse aproximar-se.
A Ilha Maldição possuía um campo anti-magia em toda sua volta — nenhum feitiço funcionava lá, diziam.
A Ilha Veneno era um pântano gigantesco onde plantas venenosas cresciam ao lado de seus próprios antídotos, um ecossistema letal e equilibrado.
E a Ilha Maravilha — seu destino — abrigava o maior farol do mundo, atualmente desativado. Era uma ilha acadêmica, tecnologicamente avançada, quase steampunk em sua sofisticação.
"Ilha Maravilha", decidiu Kaor. "Podemos entregar a fonte de energia que carregamos e conseguir suprimentos."
Concordaram. Içaram as velas — remendadas, surradas, mas funcionais — e partiram.
A viagem durou quatro dias. Mogli tentou pescar para economizar suprimentos: falhou no primeiro dia, quando o mar estava agitado demais. Conseguiu no segundo, puxando dois peixes médios. Falhou no terceiro, quando a linha se partiu. Chegaram à Ilha Maravilha com alimento sobrando para um dia — apertado, mas suficiente.
A Ilha Maravilha surgiu no horizonte como uma promessa de civilização. Primeiro viram a cidade — bem desenvolvida, com construções de pedra e metal que brilhavam ao sol. Depois o porto movimentado, repleto de embarcações de todos os tamanhos. E finalmente, no alto de uma colina que dominava a paisagem, o farol.
Era imenso. Grandíssimo. Tão alto que parecia perfurar as nuvens, uma torre de pedra branca que se erguia como um dedo acusador apontado para os céus. Mas estava apagado. Morto. Um gigante adormecido.
Foram recebidos no porto com eficiência burocrática. Um funcionário — humano magro, com ar entediado — informou a taxa: uma peça de prata por dia de ocupação da vaga. Irrisório.
Enquanto atracavam, planejaram: precisavam de recursos para a próxima viagem. Queriam negociar a fonte de energia com o pessoal do farol. E Rowan desejava comprar uma rapieira — sua arma atual estava começando a falhar.
Simas, sempre prático, recolheu as moedas de ouro que haviam encontrado na caverna, ainda cobertas de água ferrosa seca. Eram antigas, pesadas, cada uma valendo três ou quatro moedas normais. Aproximadamente mil peças de ouro no total — uma fortuna considerável.
Durante a estadia, surgiu uma questão que haviam evitado até então: precisavam de um nome. Um bando sem nome era apenas um grupo de estranhos. Um barco sem nome era má sorte.
Kaor reuniu todos no convés. "A gente precisa de um nome. Vamos achar uma semelhança entre as nossas histórias."
As sugestões começaram a fluir:
"Gangue do Macaco Louco", propôs alguém, olhando para a criatura que os observava do mastro.
"Órfãos da Névoa", sugeriu outro, reconhecendo que quase todos ali haviam perdido família, lar, passado.
"Espectro da Bruma, para o barco."
"Irmandade da Névoa."
Mogli ficou quieto por um momento, olhando para o farol apagado na colina. Quando falou, sua voz tinha aquela qualidade estranha que às vezes possuía — como se estivesse canalizando algo maior que si mesmo: "Nós somos o último farol iluminando diante da escuridão."
Rowan ergueu os olhos da prancheta, subitamente inspirado. "Chama o barco de Faroleiro!"
Houve um momento de silêncio. Então, concordância universal. Era perfeito. Simples e perfeito.
"Irmandade da Luz", disse Kaor, finalizando. "E o barco é o Faroleiro."
Para a bandeira, desenharam um farol em meio às brumas — símbolo do que eram, do que representavam. Um ponto de luz na escuridão que consumia o arquipélago.
Encomendaram velas novas com o símbolo. Um veleiro local — homem idoso com dedos manchados de tinta — prometeu tê-las prontas em quatro dias. Os reparos do barco levariam o mesmo tempo, custando quatrocentos e cinquenta peças de ouro para deixá-lo completamente restaurado.
Compraram trinta e cinco rações — dezessete peças de ouro e meia — e Rowan finalmente adquiriu sua rapieira. Vinte e cinco peças de ouro por uma lâmina leve, equilibrada, perfeita para seu estilo de luta.
Exploraram a cidade durante os dias de espera. Era fascinante — engrenagens moviam pontes, vapor escapava de tubulações nas ruas, autômatos simples varriam as calçadas. Mas tudo levava ao farol. O farol era o centro, o coração, a razão de ser da ilha.
Para entender a pedra energizada que possuíam — a fonte de energia que haviam recuperado — precisavam ir até lá.
Caminharam pela cidade em direção à colina. A subida era íngreme, pavimentada com pedras lisas que brilhavam levemente sob o sol. Quanto mais subiam, mais imponente o farol se tornava, crescendo até preencher todo o campo de visão.
Entraram por um grande portão de bronze trabalhado. O interior era surpreendentemente silencioso — um contraste gritante com a cidade barulhenta lá embaixo.
Um homem de meia idade os recebeu. Usava roupas quase sacerdotais — túnica branca com bordados dourados — e tinha uma expressão completamente apática, como se nada no mundo pudesse surpreendê-lo ou interessá-lo.
Kaor explicou, cauteloso, que haviam vindo entender o que acontecera com o farol.
"O farol não funciona há mais de mil anos", respondeu o recepcionista, voz monótona. "Foi criado para ser uma maravilha tecnológica da navegação, mas infelizmente nunca funcionou."
Nunca funcionou. Mil anos de existência, e nunca cumprira seu propósito.
Foram levados através de corredores de pedra polida até um escritório circular, com janelas que ofereciam vista panorâmica da ilha. Ali conheceram Esrental Kaldsten, o Mago da Torre.
Ele era exatamente o que esperariam: robe azul com detalhes dourados, barba e cabelos brancos perfeitamente penteados, olhos que brilhavam com inteligência afiada. Estava inclinado sobre uma mesa coberta de pergaminhos e instrumentos arcanos.
"O que traz vocês aqui?" perguntou, sem erguer os olhos.
Kaor tentou ser cauteloso sobre suas intenções, escolhendo as palavras com cuidado. Mas o mago era perspicaz.
"Você deve estar perguntando sobre os orbs, não é? Sobre as joias de energia?"
Explicou sem que pedissem: eram três no total. A fonte da tempestade, a fonte do vento e a fonte da energia. Sem elas, o farol não funcionava. Haviam sido perdidas durante a grande unificação — um evento histórico que nenhum deles compreendia completamente.
Mostrou desenhos dos três orbs: cristais perfeitamente facetados, cada um pulsando com luz diferente. Kaor reconheceu imediatamente que possuíam um deles.
"Eu posso vê-lo?" pediu o mago, finalmente erguendo os olhos.
"Antes quero saber o que você tem pra nos dar", respondeu Kaor calmamente.
A mudança no mago foi instantânea. O interesse acadêmico evaporou, substituído por irritação fria. Ele foi até a mesa, pegou uma bolsa de couro pesada e a arremessou na direção de Kaor. O som de moedas tilintando encheu o silêncio.
"Deixe o cristal aí na poltrona e saia."
Kaor olhou para os companheiros, buscando aprovação silenciosa. Então colocou o orb na mesa, com cuidado reverente. "Sinto muito. O objetivo não era te aborrecer. Eu confio em você. Mas eu preciso buscar uma pessoa que tá dentro da névoa."
O mago nem respondeu. Já estava inclinado sobre o orb, fazendo anotações frenéticas, completamente absorto.
Receberam mais mil peças de ouro. Um preço justo, talvez. Ou talvez tivessem sido roubados. Difícil saber.
Com os recursos, completaram o conserto do barco. Agora estava pleno — capaz de suportar até uma tonelada de carga e dez pessoas confortavelmente. As velas novas tremulavam ao vento, o símbolo da Irmandade da Luz bordado em fios dourados que capturavam a luz do sol.
Passaram oito dias na Ilha Maravilha no total. Gastaram mil duzentos e cinquenta peças de ouro no barco, dezessete e meia em rações, vinte e cinco na rapieira de Rowan, cinco em estadia. Venderam o grimório que haviam encontrado por quatrocentas peças de ouro — Simas não tinha uso para ele, de qualquer forma.
Sobravam aproximadamente seiscentas e três peças de ouro. Riqueza suficiente para manter-se por meses, se fossem cuidadosos.
Partiram rumo à Ilha Fantasma — sete dias de viagem, cento e sessenta e seis milhas náuticas através de águas que, segundo os mapas, eram relativamente calmas.
A viagem foi tranquila. O clima variou — algumas horas de chuva leve, um dia de vento forte que os obrigou a arriar parcialmente as velas — mas nada perigoso. Nada que testasse verdadeiramente suas habilidades como marinheiros.
Aproximando-se da Ilha Fantasma, porém, tudo mudou.
O ar ficou mais denso, mais úmido. Uma névoa leve começou a transparecer, diferente da Névoa com letra maiúscula que conheciam — esta era natural, produto da temperatura e da umidade, mas ainda assim perturbadora.
Viram primeiro um pequeno farol em uma ilha a centenas de metros da ilha principal. Depois o castelo ao centro — uma estrutura gótica, toda em pedra negra, com torres que se erguiam como garras.
Quanto mais se aproximavam, menos o sol conseguia penetrar a névoa. Tudo ficou cinza. Monocromático. Como se a cor tivesse sido drenada do mundo.
A Ilha Fantasma tinha esse nome porque todos os fantasmas do arquipélago eram atraídos para ela como um imã. Era o lugar onde os mortos vinham quando não conseguiam partir. O lugar onde assuntos inacabados se acumulavam como detritos.
Havia luzes vindas de vários pontos da ilha — não luz natural, mas o brilho espectral de espíritos inquietos. Pouquíssimos barcos estavam ancorados. Um barco pirata — velas negras, casco manchado de sangue — parecia estar partindo, seus tripulantes fantasmagóricos movendo-se em silêncio.
Quando ancoraram, um vulto se aproximou flutuando sobre a água.
Era um marujo fantasmagórico. Cabelo esvoaçante como se estivesse eternamente submerso, roupas que não obedeciam à gravidade, prancheta nas mãos translúcidas. Sua voz ecoava, vinda de lugar nenhum e de todos os lugares simultaneamente:
"Sejam bem-vindos. Quem são vocês?"
"Nós somos a Irmandade da Luz", respondeu Kaor, voz firme apesar do desconforto óbvio.
"Quanto tempo vão ficar?"
"Não sei."
"Estão dispostos a pagar o pedágio?"
"Quanto que é o pedágio?"
O fantasma — Jack O'Lantern, descobririam depois — arrancou uma folha da prancheta e a jogou no ar. Ela se dissolveu em partículas luminescentes enquanto ele se afastava flutuando, aparentemente satisfeito com a interação.
Todos fizeram questão de observar os arredores com atenção. E viram uma mulher olhando para eles.
Ela usava vestido solto em tons de vermelho escuro — cor de sangue seco. Cabelo negro amarrado em tranças complexas. Mogli, sempre amigável, mandou um joinha. Ela acenou com a cabeça, um meio-sorriso nos lábios.
Kaor guiou o grupo em direção a ela, cumprimentando-a ao passar.
Ela se curvou levemente. Possuía vários colares, pingentes, amuletos — um apanhador de sonhos, pé de galinha, alho pendurado, dente de algum animal. Brincos de penas coloridas balançavam quando movia a cabeça. Rosto de cerca de cinquenta anos, levemente cansado, mas com olhos vivos. Quase sorrindo, sempre quase.
"Olá, sejam bem-vindos."
"Bem-vindo", respondeu Kaor, corrigindo automaticamente. "É dona do...?"
"Tiveram uma reação muito boa com o Jack O'Lantern", ela comentou, interrompendo-o.
"Ele é um fantasma, não?"
"Sim, definitivamente ele já está morto há muito tempo."
"Então eu não preciso pagar nada."
"Só se você quiser. Um fantasma não usa dinheiro. Faz parte dos assuntos não resolvidos dele." Ela inclinou a cabeça, curiosa. "O que traz vocês aqui?"
"A névoa."
"Ah, névoa. Ela já se foi há um tempo."
"E o que mudou quando ela passou?"
"Alguns fantasmas reagiram diferente. Outros nem sentiram a presença da névoa, mas um deles definitivamente mudou."
"O que aconteceu com ele?"
"Eu não sei dizer. Torvald normalmente ficava no farol, olhando pro horizonte. Agora parece perturbado." Ela apontou para o pequeno farol na ilha adjacente.
"E você... quem é você?"
"Eu sou Frigga, e ajudo alguns dos fantasmas da ilha a aceitar sua nova condição."
"E qual que era a história do cara do farol?"
"Torvald está aqui há muito tempo, há mais tempo que eu. O que ele quer é passar os seus ensinamentos pra alguém digno. Ele fazia parte de alguma ordem secreta — olhos silenciosos, olhos do mar, alguma coisa assim."
Kaor franziu a testa, buscando na memória. E encontrou: uma ordem muito antiga, sempre um mestre e um discípulo. Protegiam um segredo, mas como a ordem se fora, o segredo se perdera com eles. Conhecimento perdido para sempre.
"Depois que a névoa passou, ele ficou diferente. Não fala coisa com coisa, suas memórias ficaram fragmentadas."
"Talvez a névoa levou o segredo", sugeriu Kaor.
"Talvez..."
"Você sabe quem são esse grupo que ele pertencia?"
"Só o que ele falava — que precisava achar seu sucessor. Não tinha um discípulo, e pelo visto morreu antes de fazê-lo."
"Provavelmente é um assunto não acabado dele", concluiu Simas.
"A sua aflição", confirmou Frigga.
"Eu acho que vale a pena a gente conversar com ele. Muito obrigado."
"A ilha possui muitos fantasmas com histórias não acabadas, com aflições não resolvidas. Tomem cuidado — alguns perceberam que estar aqui nunca permitiria que suas aflições fossem resolvidas, e isso os tornou bem malignos."
Ela ofereceu acompanhá-los até o farol. Aceitaram.
Caminharam pela ilha em silêncio. A névoa se movia ao redor deles como coisa viva, formando padrões que quase faziam sentido antes de se dissolverem. Figuras espectrais observavam das sombras — alguns curiosos, outros hostis, todos presos.
Então Simas sentiu.
Gelo. Considerável. Como se sua mão tivesse sido mergulhada em água congelada, ou presa num iceberg. A sensação subiu pelo braço, penetrando os ossos.
"Pessoal, eu estou sentindo frio. Minha mão tá congelando."
Quando olhou para baixo, havia uma menina anã ao seu lado.
O cabelo dela parecia estar esvoaçado como se estivesse embaixo d'água, flutuando em correntes invisíveis. Usava roupas de aventureiro — couro surrado, botas pesadas — mas era muito nova para isso. Não poderia ter mais que dez anos.
"Você... você pode me ajudar? Eu preciso encontrar minha mãe. Você pode me ajudar? Eu preciso contar pra ela."
"O que você precisa contar pra sua mãe?" Simas estava tremendo. Não de frio — de medo puro, primitivo.
Mas algo nele resistiu. Alguma força de vontade profunda que o impediu de entrar em pânico. Manteve a voz firme, os olhos focados.
"Eu preciso contar pra ela que eu não fiz nada de errado. Você pode me ajudar a contar pra minha mãe?"
Mogli — acostumado com vida, com natureza, com coisas que cresciam e respiravam — estava visivelmente apavorado. Seus bonequinhos de concha tilintavam enquanto suas mãos tremiam.
Kaor se abaixou para ficar na altura da menina, mas ela parecia ignorá-lo completamente. Seus olhos estavam fixos em Simas.
"Onde está sua mamãe?" perguntou Simas, com toda a gentileza que conseguiu reunir.
"A gente mora na Ilha Esmeralda, bem ali, no alto daquela colina." Ela apontou para uma direção que não fazia sentido — não havia nada lá, apenas névoa.
"Você me ajuda a contar pra ela? Eu não fiz nada. Não fui eu que roubei. Eu tava lá, fazendo certinho, limpando, esfregando o casco do Quebra-Queixo. O que ele me pediu, eu fiz. Eu não roubei nada."
Os olhos dela estavam fundos, com olheiras profundas como buracos. Cabelo negro, mãos grossinhas de quem trabalhara duro. Muito duro para uma criança.
Simas se lembrou: o Quebra-Queixo era um barco da Ilha Esmeralda que fora aposentado. O capitão se recusava a desmontar ou vender o barco, e ainda morava na ilha. Ele conhecia a história. Conhecia o barco.
A menina pegou na mão de Simas novamente. O frio penetrou mais fundo, alcançando o cotovelo. Mas ele resistiu, manteve-se firme.
"Você pode dizer pra ela que eu não fiz nada?"
"Eu vou dizer pra sua mamãe que você não fez nada. Tá tudo bem. Eu faço isso por você."
"Eu sou Suniva."
"Que nome bonito."
Simas tentou acalmá-la, escolhendo as palavras com cuidado. Falou sobre encontrar paz, sobre encontrar luz. Disse que ela encontraria sua mãe.
"Me ajuda então a contar pra minha mãe. Conta pra ela que eu não fiz nada, eu não o roubei, eu estava lá limpando o Quebra-Queixo, como ele me pediu."
"Quem lhe pediu? Quem pediu para limpar?"
Ela coçou a cabeça, confusa. "Ah, eu não lembro. Você me ajuda a encontrar minha mamãe?"
"Ajudo sim."
Frigga interviu, voz suave mas firme: "Ela continuará assim até você resolver o problema dela."
"Acho que a gente vai ter que ir na casa da colina", disse Kaor.
"Vocês não vão encontrar a mãe dela aqui, meninos. Esse é o assunto inacabado dela. É a aflição."
"Eu conheço o barco que ela mencionou, o Quebra-Queixo", explicou Simas. "É um barco já aposentado da Ilha Esmeralda. O capitão deve estar vivo ainda."
"Ah, você conhece?" A menina olhou com curiosidade genuína — a primeira emoção real que demonstrara além do desespero.
Frigga explicou o que já suspeitavam: "Suniva foi jogada ao mar por ser acusada de roubo da carga de um barco, chamado Quebra-Queixo."
"Por que uma criança seria acusada de um motim?" perguntou Kaor, voz carregada de raiva contida.
"Você realmente pode ajudar ela?" perguntou Frigga a Simas.
"Talvez eu possa ajudá-la sim. Eu posso pelo menos descobrir de fato, talvez tentar encontrar o capitão e conversar com ele e ver o que realmente aconteceu."
"O grande problema dos fantasmas daqui é que eles não conseguem chegar onde é preciso para resolver as suas pendências. Por isso, eu tenho pesquisado há algum tempo uma forma de facilitar essa travessia e quebrar, pelo menos temporariamente, o imã dos fantasmas."
Ela tirou um dos colares — o apanhador de sonhos — e o entregou a Simas.
"Esse amuleto pode aprisioná-la temporariamente. No amuleto. Isso pode ter efeitos colaterais, mas talvez seja a única maneira de que ela coloque as coisas em ordem e possa partir."
Simas pegou o colar com reverência e o colocou no pescoço. O peso era mínimo, mas a responsabilidade era imensa.
A menina continuou repetindo as mesmas frases, presa em loop eterno. Quando tentou pegar na mão de Simas novamente, algo aconteceu.
Foi como se o ar implodisse. A menina foi sugada para dentro do colar — não violentamente, mas inexoravelmente, como água descendo pelo ralo. No centro do apanhador de sonhos, uma pedrinha que antes era transparente ficou verde, pulsando com luz suave.
"Acho que vamos ter que dar um rolê lá na Ilha Esmeralda, pessoal", disse Simas, tocando o colar com os dedos.
Caminharam mais alguns metros até uma ponte móvel com cordas que conectava as docas ao farol. Era estreita, instável, balançando com o vento. Atravessaram cuidadosamente, um de cada vez, segurando as cordas laterais.
Depois de mais alguns metros, estavam de frente para o farol. Era menor que o da Ilha Maravilha, mais antigo, construído em pedra escura que absorvia a luz em vez de refleti-la.
E então ouviram.
Grunhidos. Alguém murmurando algo ininteligível. Palavras que quase faziam sentido, mas se dissolviam antes de formar significado completo.
Torvald estava lá dentro.
E ele estava esperando.
Sessão 7
O Segredo do Faroleiro
Sessão 7 — versão narrativa
A névoa chegava primeiro como cheiro — sal e decomposição, algo que não deveria existir no ar marinho. Depois vinha o peso, uma pressão contra a pele que fazia os olhos arderem e a respiração ficar curta. Amon conhecia aquele odor. Todos a bordo do Faroleiro conheciam.
A Ilha Fantasma emergia da bruma como uma lembrança meio esquecida, suas linhas imprecisas demais para serem reais. O farol no topo da colina estava apagado — havia estado apagado por décadas, talvez séculos. A bandeira da Irmandade da Luz tremulava no mastro do navio, mas aqui, neste lugar onde os mortos se recusavam a partir, símbolos de luz pareciam fracos, quase risíveis.
Kaor estava na proa, as mãos enormes agarradas à amurada. As tatuagens em seu corpo azul pareciam mais escuras sob aquela luz cinzenta. Ele não dissera nada desde que avistaram a ilha, mas Amon via a tensão em seus ombros, o modo como seus dedos se contraíam contra a madeira. Scar tinha vindo para cá. Scar tinha entrado na névoa.
Mogli estava agachado perto do mastro principal, seus bonequinhos de concha dispostos em um semicírculo à sua frente. Ele murmurava algo — não exatamente palavras, mais como o som que as ondas fazem ao se retirarem da areia. Os druidas que o criaram tinham lhe ensinado a respeitar os mortos. Mas respeito não era o mesmo que conforto.
Rowan escrevia em sua prancheta, a pena arranhando o papel com urgência metódica. Ele sempre escrevia quando estava nervoso. Amon tinha aprendido a ler aquele sinal — quanto mais rápido o arranhado, maior a ansiedade. Agora a pena praticamente voava.
Simas verificava suas ferramentas pela terceira vez, o caderno aberto no colo, anotações sobre resistência espectral e propriedades arcanas do Plano Etéreo cobrindo as páginas em sua caligrafia apertada e precisa.
A mulher que os esperava no cais era magra como fome, com cabelos grisalhos presos em tranças elaboradas. Frida. Médium. Aquela que falava com os que não podiam partir.
"Vocês vieram por causa de Torvald," ela disse. Não era pergunta.
Amon desceu do navio, sentindo o píer tremer sob seus pés — ou talvez fosse apenas a sensação de que nada aqui era completamente sólido. "A névoa passou por aqui. Precisamos saber o que ele viu."
Frida olhou para cada um deles, seus olhos pálidos demorando-se em Kaor por um momento extra. "Ele não está bem. Desde que aquela coisa passou... ele está quebrado. Repete as mesmas frases, sempre as mesmas frases. Não consegue parar."
"Podemos tentar," disse Mogli, levantando-se. Suas mãos ainda seguravam um dos bonequinhos. "Os mortos às vezes só precisam ser ouvidos."
Frida fez um som que poderia ter sido riso, se houvesse qualquer alegria nele. "Aqui, todos precisam ser ouvidos. É por isso que não conseguem partir."
O caminho até o farol subia por uma trilha de pedras soltas que rangiam sob as botas como ossos quebrando. A névoa era mais espessa aqui, aderindo à pele, deixando um resíduo oleoso que fazia Amon querer esfregar as mãos na túnica. Ele resistiu. Não adiantaria.
O farol se erguia contra o céu cinzento, sua estrutura de pedra manchada por décadas de sal e negligência. A porta estava aberta — sempre estava aberta. Fantasmas não precisam de portas fechadas.
Torvald zanzava em frente à entrada, seus passos não produzindo som algum contra a pedra. Ele era velho — muito mais velho que qualquer fantasma que Amon já tinha visto. Sua forma espectral era tênue nas bordas, como se estivesse se dissolvendo lentamente no ar. Mas seus olhos... seus olhos queimavam com algo que não era exatamente consciência, mas também não era completa ausência.
"Não, não, pare, pare," murmurava Torvald, as mãos fantasmagóricas se abrindo e fechando no ar. "Você não é digno, pare, silêncio, silêncio."
Mogli deu um passo à frente, devagar, as mãos abertas à frente do corpo. "Torvald," disse ele, suave. "Meu nome é Mogli. Eu vim para ouvir."
O fantasma parou. Por um momento, apenas por um momento, seus olhos focaram. "Mas, mestre," disse ele, a voz carregada de uma confusão antiga e profunda, "por que você me escolheu, se eu não sou tão bom assim pra guardar segredos?"
O coração de Amon acelerou. Segredos. A seita. O Pilar do Mundo.
"Então me conte o segredo," disse Mogli, mantendo a voz calma, sem pressão. "Me conte o que você guarda."
A expressão de Torvald se contorceu. "Não, não, pare, pare, você não é digno, pare, silêncio, silêncio." E então ele estava de volta ao looping, as mesmas palavras, o mesmo ritmo quebrado.
Kaor deu um passo pesado à frente, sua voz trovejando no ar quieto. "Eu sou digno. Eu exijo que você me conte."
Torvald virou-se para ele, e algo terrível aconteceu com seu rosto — os traços espectrais se distorceram, a boca se abrindo em um grito silencioso, os olhos se alargando até se tornarem buracos negros. "Definitivamente você não é digno."
As palavras caíram como pedras. Kaor recuou meio passo, e Amon viu algo que raramente via no rosto do monge — incerteza. Dor.
Rowan limpou a garganta. Sua voz, quando veio, era cuidadosa. Acadêmica. "O que faz alguém ser digno?"
Torvald virou-se para ele, e a distorção em seu rosto diminuiu ligeiramente. "Vai além de guardar segredos," disse ele, as palavras saindo mais claras agora, como se estivesse lembrando de um discurso decorado há muito tempo. "Tem a ver com convicção. Com suportar o fardo do Pilar do Mundo."
Mogli inspirou bruscamente. Amon viu o reconhecimento passar pelo rosto do jovem — uma memória sendo puxada de algum lugar profundo.
"O Pilar do Mundo," murmurou Mogli. "Baloo falava sobre isso. Uma porta para algo muito maior. Algo tão antigo quanto o próprio mundo." Ele olhou para os outros, seus olhos arregalados. "Fica na Ilha da Lua Crescente. Onde eu fui criado."
Rowan deu outro passo à frente, a prancheta esquecida sob seu braço. "Nós já sabemos sobre o Pilar do Mundo. Podemos saber mais?"
Torvald inclinou a cabeça, estudando Rowan com aqueles olhos queimantes. Então, lentamente, estendeu as mãos fantasmagóricas em direção à cabeça do jovem.
"Espere—" começou Amon, mas era tarde demais.
As mãos de Torvald tocaram as têmporas de Rowan, e o jovem arqueou as costas, a boca se abrindo em um grito silencioso. Amon viu seus olhos revirarem, viu o modo como seu corpo inteiro tremeu como se algo estivesse sendo despejado dentro dele, enchendo-o além da capacidade.
Conhecimento. Memórias. Segredos que deveriam ter sido passados de mestre para aprendiz, de guardião para sucessor. Tudo de uma vez, um dilúvio de informação que a mente humana não foi feita para processar.
Quando Torvald retirou as mãos, Rowan caiu de joelhos, engasgando, uma das mãos pressionada contra a boca como se estivesse prestes a vomitar. Lágrimas escorriam pelo seu rosto — não de tristeza, mas de pura sobrecarga sensorial.
Entre os flashes de informação que ainda queimavam atrás de seus olhos, uma imagem se destacou: um cometa, rasgando o céu noturno, sua cauda se estendendo por metade do horizonte.
Torvald olhou para baixo, para o jovem ajoelhado à sua frente, e algo como desprezo passou por seu rosto espectral. "Você acha mesmo que eu deixarei uma podridão como você chegar perto do maior tesouro desta existência?"
Então ele virou-se e voltou ao looping. "Não, não, pare, pare, você não é digno, pare, silêncio, silêncio."
Amon ajudou Rowan a se levantar, sentindo o jovem tremer contra ele. "Respire," murmurou. "Devagar. Você está aqui. Você está bem."
"Cometa," ofegou Rowan. "Eu vi... havia um cometa..."
"Torvald," disse Amon, virando-se para o fantasma. "O cometa. Qual é a relação entre o cometa e o segredo?"
Mas Torvald apenas olhou para ele com aqueles olhos queimantes e disse: "Seus olhos escondem, a sua boca mente. Deixe-me em paz, seu pirata imundo."
Pirata. A palavra pairou no ar como fumaça.
Amon franziu a testa, estudando o fantasma mais de perto. Não havia marcas de morte violenta — nenhum ferimento de espada, nenhum sinal de afogamento. Mas ali, perto do pescoço, havia algo estranho. Um pedaço dele simplesmente... faltava. Não era como o resto de sua forma espectral, que era translúcida mas completa. Era uma ausência, um buraco rasgado em sua essência.
"A névoa," disse Amon, a compreensão chegando devagar. "A névoa fez isso com você."
Torvald não respondeu, mas seus olhos piscaram — um momento de reconhecimento.
Rowan endireitou-se, ainda apoiado em Amon, mas sua voz estava mais firme agora. "Você passou o fardo. Você fez o que precisava fazer. Mas algo mais te prende aqui, não é? Algo relacionado ao pirata."
"A bandeira cinza," murmurou Torvald. "Um pirata imundo."
Rowan fechou os olhos, procurando na memória. Quando os abriu, havia certeza neles. "Os Piratas das Cinzas. Segundo os rumores, eles foram os primeiros a serem engolidos pela névoa."
Simas, que tinha estado quieto até agora, falou pela primeira vez. "Então a névoa os atacou primeiro? Ou eles criaram a névoa e foram pegos por ela?"
Ninguém tinha resposta.
Torvald aproximou-se de Rowan mais uma vez, e desta vez havia algo diferente em seus movimentos — não a repetição mecânica do looping, mas propósito. Ele inclinou-se, suas mãos fantasmagóricas tocando levemente os ombros do jovem, e sussurrou: "Não deixe que uma podridão chegue perto do maior tesouro dessa existência. Lembre-se, você é digno."
E então, como névoa queimada pelo sol, Torvald simplesmente... se desfez. Não houve som, nenhum flash de luz. Ele estava ali, e depois não estava mais.
O ar pareceu mais leve. A pressão que Amon nem tinha percebido que estava sentindo diminuiu.
Frida, que tinha observado tudo de uma distância respeitosa, assentiu lentamente. "Ele finalmente descansou. Vocês fizeram bem."
Mas enquanto desciam a trilha de volta ao vilarejo, Amon não conseguia parar de pensar nas últimas palavras de Torvald. Podridão. Ele tinha chamado Rowan de podridão. Tinha passado o conhecimento para ele, o tinha considerado digno... e então o tinha chamado de podridão.
O que aquele fantasma antigo tinha visto em Rowan que o resto deles não via?
A névoa natural da ilha — não a Névoa, mas a bruma comum que vinha do mar — estava mais espessa quando começaram a voltar. Mogli ia na frente, seus passos seguros mesmo no terreno irregular, quando a voz veio do nada.
"Cadê o meu tesouro?"
Eles pararam. A voz tinha vindo de todos os lugares e de lugar nenhum, carregada de raiva e ganância.
"Devolvam agora o meu tesouro!"
O fantasma se materializou à frente deles na trilha — um pirata brutal, caolho, com um chapéu que já tinha sido grandioso mas agora estava esfarrapado e manchado. Ele empunhava uma espada espectral que brilhava com luz doentia, e havia algo de fome nele, algo que ia além da simples ganância.
Kaor não hesitou. Ele se lançou para frente, seus movimentos fluindo com a graça brutal que Scar tinha lhe ensinado, os punhos se tornando borrões azuis no ar cinzento.
O primeiro golpe acertou o fantasma no peito. O segundo pegou-o de lado. O terceiro passou por onde deveria estar sua cabeça, mas o fantasma já estava se movendo, mais rápido do que qualquer morto deveria se mover.
A espada espectral desceu uma vez, duas vezes, e Kaor — Kaor que tinha enfrentado monstros de ferrugem, que tinha sobrevivido a tempestades no mar aberto — cambaleou para trás, sangue escorrendo de cortes que ardiam com frio necrótico.
Ele caiu de joelhos, e Amon viu a vida se esvair de seus olhos.
Mas Kaor era monge. Kaor tinha sido treinado para dançar na borda da morte.
Ele inspirou — um único suspiro profundo que parecia puxar força de algum lugar além do corpo — e se levantou. Havia sangue em seus lábios, e ele estava tremendo, mas estava de pé.
Rowan recuou, sua adaga saindo da bainha. Ele era escriba, não lutador, mas a lâmina encontrou carne espectral de qualquer forma. O dano foi mínimo, mas foi dano.
Amon sentiu o poder divino fluir através dele, aquela conexão com algo maior que ele nunca tinha pedido mas que tinha vindo mesmo assim. Ele estendeu a mão, e uma espada se materializou no ar — azul royal e dourada, brilhando com luz que não era deste mundo.
Arma Espiritual.
A espada voou, guiada por sua vontade, e cortou o fantasma do ombro ao quadril. Desta vez, o dano não foi reduzido. Luz divina queimava tão bem quanto aço.
Simas murmurou palavras arcanas, e seu canhão arcano se materializou — um pequeno dispositivo de bronze e madeira que zumbiu para a vida. O rebite que ele tinha atirado se transformou, expandindo-se, tornando-se a base para a construção mágica.
O canhão disparou, e o projétil de força arcana acertou o fantasma em cheio.
Mogli fechou os olhos, e quando os abriu novamente, ele não era mais completamente humano. Sua forma se expandiu, carapaça brotando de sua pele, garras se formando onde antes havia dedos. Mungo Crabberson, o caranguejo gigante, clicou suas pinças e cuspiu uma lasca de luz estelar que errou o fantasma por centímetros.
Kaor avançou novamente, e desta vez seus golpes eram precisos, controlados. Ele não estava tentando causar dano — estava tentando interromper, desequilibrar. Seu punho encontrou o centro de massa do fantasma, e algo na força do impacto fez a forma espectral travar.
Ataque Atordoante.
O fantasma ficou parado, sua forma tremendo, incapaz de se mover.
Kaor recuou, usando a técnica de desengajamento que Scar tinha lhe ensinado, colocando distância entre ele e a ameaça.
Mas o fantasma não precisava se mover para atacar.
Ele abriu os braços, as duas espadas espectrais se estendendo para os lados, e sua forma inteira começou a brilhar com luz fria e terrível. A aura que emanou dele era feita de medo puro — não o medo natural de estar em perigo, mas algo mais profundo, mais primordial. O medo da morte. O medo do esquecimento.
O medo de se tornar como ele.
A onda de terror psíquico atingiu todos eles. Rowan gritou, caindo de joelhos, as mãos pressionadas contra as têmporas. Simas cambaleou, seu canhão quase caindo. Kaor — Kaor que já estava na borda — sentiu a escuridão puxá-lo novamente.
Apenas Amon permaneceu de pé, o pingente em seu pescoço — metade sol, metade chave — queimando quente contra sua pele. A luz que emanava dele era fraca, mas era suficiente. Era suficiente para mantê-lo ancorado.
Mas os outros...
Kaor estava no chão novamente, seu corpo convulsionando. Amon viu a vida deixá-lo, viu o momento em que ele cruzou o limiar.
E então viu Kaor recusar-se a cruzar.
O monge orc inspirou — impossível, com pulmões que não estavam mais funcionando — e seus olhos se abriram. Havia sangue em todo lugar, mas ele estava vivo. Ainda vivo.
Mogli, mesmo em forma de caranguejo, sentiu a onda de medo. Sua carapaça tremeu, e de algum lugar profundo dentro dele veio um som — um trovão em miniatura, um rugido de desafio. Energia trovejante explodiu de sua forma, atingindo o fantasma.
Amon não pensou. Ele apenas agiu. Suas mãos se moveram em gestos que ele tinha aprendido de padres que nunca conheceu, palavras que ele não lembrava de ter memorizado fluindo de seus lábios.
Curar Ferimentos.
Luz dourada envolveu Kaor, e Amon sentiu o poder divino fluir através dele e entrar no monge. Feridas se fecharam. Sangue parou de fluir. Kaor ofegou, seus olhos focando, e ele acenou — um único gesto de gratidão que disse mais do que palavras poderiam.
A Arma Espiritual atacou novamente, guiada pela vontade de Amon, e desta vez o corte foi profundo. O fantasma vacilou.
Simas tentou disparar novamente, mas suas mãos estavam tremendo demais. O prego passou longe. O canhão errou.
E então Mogli — Mungo Crabberson — abriu suas mandíbulas de caranguejo e cuspiu luz estelar diretamente no centro do fantasma pirata.
A luz radiante o atingiu em cheio, e o fantasma explodiu. Não se desfez como Torvald tinha feito, em paz e resolução. Ele explodiu, fragmentos espectrais voando em todas as direções, cada pedaço gritando com raiva e frustração antes de desaparecer.
O silêncio que se seguiu era tão completo que Amon podia ouvir seu próprio coração batendo.
Frida estava esperando quando eles voltaram ao vilarejo, e havia algo como aprovação em seus olhos pálidos.
"Muitos fantasmas aqui," ela disse, "ficam cansados de implorar aos vivos. Então eles assumem posturas hostis." Ela olhou para onde o fantasma pirata tinha explodido. "Aquele era um dos piores. Ele voltará em alguns dias — fantasmas sempre voltam — mas vocês lhe deram uma lição. Talvez na próxima vez ele seja mais... educado."
Kaor estava sentado em um barril perto do cais, a cabeça entre as mãos. Amon podia ver os tremores que ainda percorriam seu corpo — a memória de morrer, duas vezes, e voltar. Isso deixava marcas. Não as físicas, que a magia divina podia curar, mas as outras. As mais profundas.
Mogli tinha voltado à sua forma humana e estava reorganizando seus bonequinhos de concha, os dedos se movendo com precisão automática. Era o que ele fazia quando precisava se acalmar.
Rowan ainda segurava a prancheta, mas a pena estava parada. Ele olhava para o horizonte, para a névoa que nunca realmente se dissipava, e Amon se perguntou o que ele via lá. O que Torvald tinha colocado em sua cabeça.
Simas estava verificando seu canhão, fazendo anotações sobre eficiência contra alvos espectrais, mas seus movimentos eram mecânicos. Ele também tinha sentido o medo.
"Há mais para ver na ilha?" perguntou Amon a Frida, mais para quebrar o silêncio do que por real curiosidade.
"Há o cemitério," disse ela. "Mas eu não recomendaria. Magni vive lá, e ele é... peculiar."
Kaor levantou a cabeça. "Magni?"
"Um colecionador. Vive entre os mortos há décadas. Diz que são seus melhores amigos." Frida deu de ombros. "Como eu disse. Peculiar."
Mogli e Rowan trocaram olhares. "Pode saber algo útil," disse Mogli.
"Ou pode ser completamente louco," acrescentou Rowan.
"Neste arquipélago," disse Amon, "as duas coisas não são mutuamente exclusivas."
O cemitério ficava no interior da ilha, alcançado por uma estrada abandonada que cortava através de um bosque morto. As árvores eram esqueletos retorcidos, seus galhos alcançando o céu cinzento como mãos implorando. O solo era rochoso, a vegetação escassa e amarelada.
O cemitério em si era vasto — muito maior do que a pequena população da ilha justificaria. Lápides se estendiam em todas as direções, algumas tão antigas que as inscrições tinham sido apagadas pelo tempo e pelo sal. E todas as covas estavam abertas.
Todas elas.
"Isso é perturbador," murmurou Simas, olhando para os buracos vazios onde corpos deveriam estar descansando.
O som de uma pá atingindo terra veio de algum lugar à esquerda. Eles seguiram o som e encontraram uma cova recém-aberta, terra fresca sendo jogada para fora.
"Haha, eu sabia!"
Um gnomo emergiu do buraco, segurando um anel enferrujado como se fosse o maior tesouro do mundo. Ele era pálido — não a palidez saudável de alguém que passa pouco tempo ao sol, mas a palidez ressecada de algo que está lentamente se tornando parte da terra. Seu cabelo era ralo, sua pele esticada sobre os ossos do rosto.
Magni. Tinha que ser.
"Você está roubando dos mortos," disse Amon, e não era pergunta.
Magni olhou para ele com olhos arregalados e levemente ofendidos. "Roubar? Roubar? Bernadette me disse onde estava o anel de casamento dela. Eu só estava confirmando. Vou devolver depois que mostrar para ela, é claro. Ela vai ficar tão feliz!"
Kaor deu um passo à frente, colocando-se entre Amon e o gnomo. "Paz," disse ele, a voz baixa. "Estamos aqui para fazer perguntas, não acusações."
Amon recuou, mas manteve os olhos em Magni. Havia algo profundamente errado em viver entre os mortos por tanto tempo. Algo que mudava uma pessoa.
"Você vive aqui há quanto tempo?" perguntou Mogli, sua voz gentil.
"Oh, quatro, talvez cinco décadas?" Magni saiu da cova com agilidade surpreendente, limpando a terra de suas roupas. "Perco a conta. O tempo é diferente quando seus melhores amigos não envelhecem."
"A névoa," disse Kaor, direto ao ponto. "Ela passou por aqui. Você a viu?"
A expressão de Magni mudou. O entusiasmo saiu de seu rosto, substituído por algo mais sério. "Aquilo não era névoa de verdade." Ele apontou para a bruma natural que pairava sobre a ilha. "Isso é névoa de verdade. Aquilo era alguma coisa que alguém fez."
"Quem?" A voz de Kaor tinha uma borda afiada.
"Bem, eu conhecia o capitão dos Piratas das Cinzas. Halvard Frihentz. Dizia ser herdeiro legítimo de Frihet — você sabe, o lendário fundador do arquipélago." Magni revirou os olhos. "Babacão. Completamente obcecado por tesouros. Sempre falando sobre encontrar o maior tesouro de todos, provar que era digno do nome que carregava."
"Quando foi a última vez que você o viu?" perguntou Rowan, a pena já se movendo sobre o papel.
"Uma década? Duas?" Magni deu de ombros. "Como eu disse, perco a conta."
Mogli inclinou a cabeça. "Há uma seita no castelo. Você sabe algo sobre eles?"
Magni fez um gesto protetor elaborado com as mãos — dedos entrelaçados de um jeito específico, pulsos cruzados, uma torção final. Era antigo, o tipo de gesto que as pessoas faziam antes de palavras como "bênção" ou "proteção" existirem.
"Deus me livre," disse ele, e havia medo real em sua voz. "Esses caras gostam da morte. Eu gosto dos mortos, porque meus melhores amigos estão mortos. Mas eu não gosto da morte. Há uma diferença."
Kaor deu outro passo à frente. "Você conhece alguém chamado Scar? Um monge velho. Foi levado pela névoa."
Magni franziu a testa, pensando. Então balançou a cabeça. "Não. Desculpe. Muitas pessoas foram levadas. Eu não conhecia todas."
A decepção no rosto de Kaor era palpável.
"Mas posso lhe dar uma aula sobre o arquipélago!" disse Magni, animando-se novamente. "Você sabia que cada ilha é um ímã para um plano diferente?"
Simas levantou a cabeça, interesse despertado. "Como assim?"
"Bem, esta ilha aqui — Ilha Fantasma — é um ímã para o Plano Etéreo. Por isso atrai fantasmas. A Ilha Tempestade é um ímã para o Plano do Gelo. A Ilha do Abismo para o Shadowfell — o Plano das Sombras. A Ilha Kraken para o Plano das Fadas — é por isso que coisas grandes vivem lá. A Ilha da Caveira para o Plano da Água."
"E a Ilha Maldição?" perguntou Rowan.
"Ah, essa deveria ser um ímã para o Abismo, mas a maldição bloqueia a magia, então não funciona direito. Irônico, não é?"
Kaor tinha ouvido o suficiente. "Obrigado pela informação," disse ele, abruptamente. "Podemos ir agora."
Magni piscou, surpreso pela dismissão súbita. "Oh. Bem. Foi... foi bom falar com os vivos novamente. Meio estranho, mas bom." Ele começou a se afastar, murmurando para si mesmo. "Nossa, eu nunca achei que falar com os vivos de novo ia ser tão estranho."
Eles caminharam em silêncio de volta ao vilarejo. A névoa natural parecia mais espessa agora, ou talvez fosse apenas o peso da informação que carregavam.
Foi Kaor quem quebrou o silêncio. "Barco fantasma," disse ele, a voz rouca. "A névoa não é imaterial. É um barco fantasma. Como o Holandês Voador. Saqueia o que encontra."
Amon considerou isso. "No barco de Bagheera, o ouro desapareceu. Bagheera desapareceu. Se os Piratas das Cinzas criaram a névoa..."
"Então tudo que foi capturado está dentro dela," completou Rowan.
Mogli franziu a testa. "Mas Magni disse que os Piratas das Cinzas foram os primeiros capturados. Como eles poderiam ter criado a névoa se foram pegos por ela?"
"Talvez a névoa antecedesse os piratas," sugeriu Rowan. "E eles foram apenas os primeiros a serem pegos."
"Ou," disse Simas, "eles criaram algo que não podiam controlar."
Kaor tinha parado de andar. Ele estava olhando para o mar, para o horizonte onde a névoa natural encontrava o céu. "Scar foi em busca da névoa," disse ele, e sua voz estava quebrada de um jeito que Amon nunca tinha ouvido antes. "Ele saiu procurando por ela e nunca mais voltou. E eu... eu presumo que ele está dentro dela. Mas ele era apenas um monge. Um mestre, sim, mas... ele não era importante o suficiente para ser mantido vivo, era?"
Amon colocou a mão no ombro de Kaor. O monge orc era enorme, facilmente vinte centímetros mais alto que ele, mas naquele momento parecia pequeno. "Um mestre é sempre importante," disse Amon. "Não apenas para seus discípulos, mas para todos que reconhecem seu valor."
"Mas e se ele não foi pego?" disse Mogli, suavemente. "E se ele ainda está procurando? Você disse que ele foi em busca da névoa. Não que ele a encontrou."
"E se ele encontrou?" A voz de Kaor era quase um sussurro. "E se ele achou a névoa? Então ele está dentro dela agora."
Não havia resposta para isso. Não havia conforto que pudesse ser oferecido.
Kaor virou-se bruscamente. "Vamos embora. Vamos sair desta ilha."
Eles voltaram ao Faroleiro em silêncio.
A bordo do navio, com as velas sendo preparadas e a tripulação se movendo com eficiência silenciosa, o grupo se reuniu no convés principal para decidir o próximo destino.
Simas foi o primeiro a falar. "A Ilha Kraken. Há uma fruta lá — a Fruta Zafira, azul, com propriedades medicinais. Um lorde em Maré Negra a deseja. Poderia ser uma boa oportunidade comercial."
"E precisamos voltar à Ilha Horizonte," acrescentou Amon. "Aceitar as missões para a Ilha Veneno e a Ilha Fúria."
Rowan já estava anotando, sua pena arranhando o papel. "Então a rota seria: Kraken, depois Maré Negra para entregar a fruta, e então Horizonte para pegar as missões."
"Kraken," disse Mogli, pensativo. "Ímã para o Plano das Fadas. Coisas grandes vivem lá."
"Coisas grandes," repetiu Kaor. Havia algo como humor amargo em sua voz. "Claro. Por que não?"
Mas ele não protestou. Nenhum deles protestou.
A Ilha Kraken era o próximo destino. Um lugar onde criaturas gigantescas vagavam, onde a linha entre este mundo e o Plano das Fadas era tênue. Um lugar onde, talvez, eles encontrariam respostas.
Ou mais perguntas.
O Faroleiro virou, suas velas pegando o vento, e a Ilha Fantasma começou a desaparecer na névoa atrás deles. Amon ficou na popa, observando a ilha se dissolver, pensando em Torvald e em suas últimas palavras.
Você é digno.
Mas também: Podridão.
O que aquele fantasma antigo tinha visto? O que ele sabia que eles não sabiam?
Amon tocou o pingente em seu pescoço — metade sol, metade chave — e se perguntou, não pela primeira vez, que portas ele estava destinado a abrir.
E o que encontraria do outro lado.